Diário do webspaço

Sunday, October 31, 2010

Até o papa apoiou Serra

Até o papa apoiou Serra

Dilma Rousseff, a eleita, teve de enfrentar a campanha mais feroz contra um candidato à Presidência na história do Brasil. Por Mino Carta. Foto: AFP

Dilma Rousseff, a eleita, teve de enfrentar a campanha mais feroz contra um candidato à Presidência na história do Brasil

Temos uma mulher na Presidência da República, primeira na história do
Brasil. E que uma mulher chegue a tanto já é notícia extraordinária.
Levo em conta a preocupação do Datafolha a respeito da presença feminina no tablado eleitoral: refiro-me à pergunta específica contida na sua pesquisa, sempre aguardada com ansiedade pelo Jornal Nacional e até pelo Estadão. A julgar pelo resultado do pleito, Dilma Rousseff representa entre nós a vitória contra o velho preconceito pelo qual mulher só tem serventia por certos dotes que a natureza generosamente lhe conferiu.

Para CartaCapital a eleição de Dilma Rousseff representa coisas mais.

A maioria dos eleitores moveu-se pelas razões que nos levaram a apoiar a candidata de Lula desde o começo oficial da campanha. Em primeiro lugar, a continuidade venceu porque a nação consagra os oito anos de bom governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Inevitável foi o confronto com o governo anterior de Fernando Henrique Cardoso, cujo trunfo inicial, a estabilidade, ele próprio, príncipe dos sociólogos, conseguiu pôr em risco.

Depois de Getúlio Vargas, embora manchada a memória pelo seu tempo de ditador, Lula foi o único presidente que agiu guiado por um projeto de país.

Na opinião de CartaCapital, ele poderia ter sido às vezes mais ousado em política social, mesmo assim mereceu índices de popularidade nunca dantes navegados e seu governo passou a ser fator determinante do êxito da candidata.

A comparação com FHC envolve também a personalidade de cada qual. Por exemplo: o professor de sociologia é muito menos comunicativo do que o ex-metalúrgico, sem falar em carisma. Não se trata apenas de um dom natural, e sim da postura física e da qualidade da fala, capaz de
transmitir eficazmente ideias e emoções. Lembraremos inúmeros discursos de Lula, de FHC nenhum.

Outra diversidade chama em causa a mídia nativa. Fascinada, sempre
esteve ao lado de FHC, inclusive para lhe esconder as mazelas.

Vigorosa intérprete do ódio de classe em exclusivo proveito do privilégio, atravessou oito anos a alvejar o presidente mais amado da história pátria. Quando, ao dar as boas-vindas aos 900 convidados da festa da premiação das empresas e dos empresários mais admirados no Brasil, ousei dizer que o mensalão, como pagamento mensal a parlamentares, não foi provado para desconforto da mídia, certo setor da plateia esboçou um começo de vaia. Calou-se quando o colega Paulo Henrique Amorim ergueu-se ao grito de “Viva Mino!” Os fiéis da tucanagem não primam pela bravura.

Pois Dilma Rousseff teve de enfrentar esta mídia atucanada, a reeditar o udenismo de antanho em sintonia fina com seus heróis. Deram até para evocar o passado da jovem Dilma, “guerrilheira” e “terrorista”. Como de hábito, apelaram para a má-fé para explorar a ignorância de um povo que, infelizmente, ainda não conhece a sua história, e que não a conhece por obra e graça sinistra de uma minoria a sonhar com um país de 20 milhões de habitantes e uma democracia sem demos.

Nos porões do regime dos gendarmes da chamada elite, Dilma Rousseff­ foi encarcerada e brutalmente torturada. Poderia ter sofrido o mesmo fim de Vlado Herzog, que os jornalistas não se esquecem de recordar todo ano.

Mas a hipocrisia da mídia não tem limites, com a contribuição da
ferocidade que imperou na internet ao sabor da campanha de ódio nunca tão capilar e agressiva. E na moldura cabe à perfeição a questão do aborto, praticado à vontade pelas privilegiadas e, ao que se diz, pela própria esposa de José Serra, e negado às desvalidas.

Até o papa alemão a presidente recém-eleita teve de enfrentar. Ao se
encontrar já nos momentos finais da campanha com um grupo de bispos nordestinos, Ratzinger convidou-os a orientar os cidadãos contra quem não respeita a vida, clara referência à questão que, lamentavelmente, invadiu as primeiras páginas, as capas, os noticiários da tevê. Parece até que Bento XVI não sabe que o Vaticano fica na Itália, onde o aborto foi descriminalizado há 40 anos.

Saturday, October 30, 2010

O Globo se rói de ódio do sucesso da Petrobras

O Globo se rói de ódio do sucesso da Petrobras

Da campanha que levou ao suicídio de Getúlio Vargas – quando os microfones da Rádio Globo foram entregues a Carlos Lacerra (ops, troquei uma letra) à eleição de Fernando Collor, passando, claro, pelo golpe de 64, o império Globo esteve metido até os ossos com tudo o que de mau se fez a este país.
Não é, portanto, de estranhar que o jornal esteja em campanha aberta contra a Petrobras, no momento em que esta empresa se afirma como instrumento da libertação econômica e social deste país.
Ontem, já chamava atenção para isso aqui no blog. Mas hoje o jornal superou o insuperável e “desceu aos píncaros” da imundície.
Sua manchete, simplesmente, “acusa” a Petrobras de achar e extrair petróleo.
Trata o início de operação de Tupi, a descoberta de petróleo em Sergipe e a definição das reservas gigantes da área de prospecção de Libra como sendo “eleitorais”.
Desculpem-me, mas só um energúmeno pode achar que atividades complexas como estas podem ser tratadas assim. “Fulano, na quarta-feira você acha petróleo no fundo do mar, a 2.400 metros lá em Sergipe, beltrano, na quinta você coloca um navio-plataforma com capacidade para 100 mil barris/dia em operação e sicreno, na sexta você termina os estudos geológicos lá em Libra e anuncia que são bilhões de barris”.
Só mesmo quem manipula a informação como faz o império Globo pode achar que as coisas podem ser feitas assim numa empresa gigantesca, onde o corpo técnico e os trabalhadores não podem, no caso de não se prestarem docilmente às ordens dos donos, podem ser convidados a passar no departamento de pessoal.
As Organizações Globo são as grandes deformadoras da consciência social desta Nação. São elas que fazem, com seu poderio, a escolha dos integrantes do próximo “Big Brother” ser mais importante nos meios de comunicação do que o país encontrar, em um úinico campo de petróleo, reservas que poderão, sozinhas, mais do que dobrar nosso potencial petrolífero.

O império Globo não quer que o Brasil seja um país livre, quer seguir a ser o feitor de uma colônia escrava.

Mas, se Deus quiser, o que não foi feito nos oito anos de Governo Lula, que viveu a ilusão de que serpentes podem ser domadas, entrou em marcha nestas eleições. Não é censura, não é perseguição. É luz, é fazer o Brasil entender quem são eles, o que desejam e perceber que a Globo não é mais a senhora dos nossos destinos, que estão nas mãos do povo brasileiro, seu único e legítimo dono.

Site oficial de Serra patrocina terrorismo eleitoral

Site oficial de Serra patrocina terrorismo eleitoral

Site oficial de Serra patrocina terrorismo eleitoral

Vídeo fez desta a campanha eleitoral mais suja que já assistimos. Por Brizola Neto. Foto: Reprodução

Por Brizola Neto*

A colunista Eliane Catenhede referiu-se aos blogs pró-Dilma como “os cães da internet”.

José Serra chama-os de “blogs sujos”.

Quero saber o que irão falar do que a campanha de Serra – sim, a campanha de Serra, que colocava este blog “Vou de Serra 45″ na sua capa de seu site oficial – publica com o mais nítido sentido de terrorismo eleitoral, com uma produção que é evidentemente eleitoral.
Um vídeo chamado “2012, o fim está próximo” é um crime, sob todos os aspectos.

Figura o Brasil sob uma ditadura, até com ameaça de invasão de tropas estrangeiras.

Coisa de canalhas. Quem age assim, sob um regime democrático e às vésperas de uma eleição livre e democrática.

Pessoas assim, sim, são terroristas. Porque não estão lutando contra a tirania, estão lutando contra o voto livre da população, usando como arma o medo, a mentira e, sobretudo, a covardia.

Vou colocar o vídeo, repugnado. Porque ele está sendo publicado por dois dos grandes veículos de comunicação, O Globo e o Estadão, em seus portais, nas colunas Radar Online e no Noblat. E sem uma palavra de condenação. (atualização: postado também no corpo de O Globo).
Por isso publico, porque é necessário reagir, e não fingir que isso não é nada.

Foi por “não ser nada” que o nazismo se desenvolveu até ir ao poder.

Eu desconsideraria, se não tivesse sido publicado, como disse, sem uma palavra de condenação por dois órgãos de imprensa gigantescos, que, ao faze-lo, difundiram a centenas de milhares de pessoas o conteúdo do esgoto.

Sei que o assunto está no setor jurídico do PT.

Em nome da democracia, suplico que tomem uma atitude, já que se tornou inútil esperar que o Ministério Público Eleitoral aja.

Tem que haver limites para a baixaria e a sordidez.

Não se trata de reprimir a liberdade e o direito de crítica, consagrados na Constituição, vedado o anonimato.

O blog, mesmo sendo anônimo, encontrou abrigo na página da campanha de José Serra.

Assim, juridicamente, ele o subscreveu.

Não é um comentarista ou alguém que, informalmente, diz ali coisas exageradas.

É um trabalho profissional, não obra de amador. Foi postado num canal do youtube criado especialmente para isso, na quarta-feira.

Nunca pedimos ações contra garotos que fazem baixarias.
Coisa bem diferente é isso ser patrocinado pela campanha tucana.
Que fez, lamentavelmente, desta a campanha eleitoral mais suja que já assistimos.

*Metéria originalmente publicada no Blog Tijolaço

Lavagem de dinheiro. Vaticano fala em transparência, mas se fecha sobre 13 contas-correntes explosivas

Lavagem de dinheiro. Vaticano fala em transparência, mas se fecha sobre 13 contas-correntes explosivas

Marcinkus, um dos banqueiros de Deus.

Marcinkus, um dos banqueiros de Deus.

1. Em 1942, o papa Pio XII fundou um banco para o Vaticano e lhe deu o nome de Instituto para as Obras Religiosas (IOR).

Ao tempo que o IOR foi dirigido pelo arcebispo Paul Marcinkus (1971 a 1989), um faixa preta de judô que começou sua carreira clerical na Santa Sé como guarda-costas de papas, o Banco do Vaticano esteve no epicentro de um megaescândalo financeiro, avaliado, por baixo, em US$3,5 bilhões.

Além de Marcinkus e a Loja Maçônica P2 protagonizaram esse escândalo os banqueiros Roberto Calvi, apelidado de “banqueiro de Deus”, envenenado em 1982 e pendurado pelo pescoço numa ponte londrina, e Michele Sindona, o “banqueiro da Máfia”, envenenado no cárcere ao tomar uma xícara de café levada pelo carcereiro, no início da manhã.

Há duas semanas, como informado neste blog Sem Fronteiras de Terra Magazine, a Justiça italiana determinou, por suspeitar de lavagem de dinheiro, a apreensão de 23 milhões de euros do IOR, depositados no banco italiano Credito Artigiano.

Por violar norma estabelecida pela União Europeia voltada a impedir a lavagem de dinheiro no sistema bancário-financeiro, a Justiça italiana impediu as transferências de (a) 20 milhões de euros, para o banco J.P. Morgan de Frankfurt destinadas a correntistas identificados por números, e (b) 3 milhões de euros a correntistas numerados do banco Fucino de Roma.

2. O porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi, diz que tudo pode ser esclarecido com muita facilidade. Segundo Lombardi, houve apenas uma “operação de tesouraria”, com simples transferências para ordens religiosas.

Para Lombardi, o incidente foi criado em razão de uma “misunderstanding in via di approfondimento”. O presidente do Banco do Vaticano (IOR), Ettore Gotti Tedeschi, que está sendo investigado, prefere o termo “equívoco” a “ misunderstanding”.

Tedeschi é investigado por presumida violação às normas europeias e internacionais contra a lavagem e reciclagem de capitais.

O banqueiro Tedeschi, do mundo laico, foi nomeado pelo papa Bento XVI, em 23 de setembro de 2009. Sua tarefa era de dar transparência ao Banco do Vaticano, cuja imagem continuava péssima, devido ao escândalo Marcinkus (morto em 2006, no Arizona e já “aposentado”), Calvi, Sindona e Loja Maçônica P2. (Propaganda 2).

A indicação de Tedeschi partiu do cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado, segundo na hierarquia vaticana e, há anos, braço direito do papa Ratzinger. Bertone preside a Comissão de Vigilância do IOR, formada por seis clérigos.

3. Depois desse último escândalo, o papa Ratzinger pretende ter uma espécie de “presidente” de Banco Central. O cotado é o cardeal Attilio Nicora, membro da Comissão de Vigilância.

Como sabem até as colunas de Bernini que abraçam a praça de São Pedro, a transparência no Banco do Vaticano nunca foi além do discurso.

Os jornais italianos falam em “13 contas” explosivas, em nomes de laicos e cuja identidade o Vaticano mantém debaixo no mais absoluto segredo. Nem nos confessionários vaticanos o sigilo é tão protegido.

Suspeita-se que uma dessas contas seja de Angelo Balducci, o “homem da Santa Sé” no atual escândalo de obras públicas do governo italiano referente às construções feitas por ocasião do G-8, do campeonato mundial de natação etc.

Para muitos, o fato de o papa Ratzinger ter recebido Tedeschi em Castel Gandolfo, no domingo, depois do Angelus, foi uma jogada para acalmar as águas agitadas e passar a mensagem de confiança em Tedeschi.

Mas, se a investigação na Justiça engrossar, a agenda papal mostrará que Tedeshi foi levar a Ratzinger um livro da sua autoria e intitulado A Economia Global e o Mundo Católico.

4. Como se descobriu, o livro de Tedeschi foi escrito e lançado em 2004. Indagado, ele explicou haver levado a Ratzinger uma nova edição, adaptada à encíclica Caritas in Veritate, dedicada à ética na economia.

Fora das muralhas do Vaticano, do outro lado do rio Tevere, comenta-se que os fantasmas de Marcinkus, Calvi e Sindona foram vistos em livrarias romanas, interessadíssimos na aquisição da obra de Tedeschi e nas contribuições éticas.

Wálter Fanganiello Maierovitch

Tucanos no extremo


Tucanos no extremo


Tucanos no extremo

Caminhando pelo centro de São Paulo, ontem, assisti a uma manifestação de
leitores de José Serra que saiu do Largo São Francisco e chegou a Praça da
República. Foi um cortejo com milhares de pessoas. Entre funcionários públicos, o baixo clero e o alto clero da administração do governo paulista, de autarquias e empresas ligadas ao governo, você podia ver aqueles cidadãos comuns que compõem o tucano imaginário que nem sempre se pode avistar.

Depois que o governo Lula atraiu a quase totalidade do movimento sindical para apoiar seu governo, inclusive a Força Sindical, criada com ajuda de empresários paulistas, de Fernando Collor e convênios amigos nos tempos de FHC, o PSDB nunca mais foi capaz de fazer uma mobilização popular, com aquela massa de cidadãos do universo D e E das grandes cidades.

No ato de ontem, estavam cidadãos de classe média, homens e mulheres que se deram ao trabalho de sair de casa numa sexta-feira para participar de um ato político. Pude reconhecer líderes de entidades empresariais, médicos, jornalistas, profissionais liberais, alguns artistas. Algumas pessoas estavam bem vestidas, de chapéu para enfrentar o sol. Em número suficiente para serem notadas no meio do cortejo que atravessava a Barão de Itapetininga a caminho da Praça da Republica, senhoras usavam lenços estampados em volta do pescoço, numa elegancia que se vê também pelas ruas de Higienópolis e dos Jardins.

O ato foi convocado para manifestar apoio a José Serra mas muitos estavam ali basicamente para combater Dilma Rousseff. Essa foi, sem dúvida, a principal bandeira do PSDB na campanha presidencial de 2010. Os tucano se tornaram uma legenda do contra.

Minha avaliação é que Serra não conseguiu exibir um projeto de país ao longo da campanha. Exibiu fragmentos. Mostrou realizações como governador e como ministro. Mas não definiu um retrato, uma mensagem positiva para 140 milhões de pessoas. Fez uma campanha concentrada em sua personalidade, numa comparação de competênciais pessoais, quase técnicas.

FHC compareceu à passeata de ontem mas esteve ausente ao longo da campanha. Essa decisão pode explicar-se pelas pesquisas que demonstram a baixa popularidade do ex-presidente e pelo esforço de Serra em apagar suas diferenças em relação a Lula. Mas deixou Serra sem lastro.

Alguns integrantes do PSDB culpam o marketing. Eu acho ingenuidade. A questão não é de publicidade, mas de linha política. Não consigo imaginar que Luiz Gonzalez pudesse levar ao ar um anúncio de 30 segundos que não fosse a expressão do pensamento de Serra.

Numa ruptura com uma história moderada, de quem era uma típica legenda de centro-esquerda, na campanha presidencial o PSDB se tornou adversário estridente de Lula, Dilma e do PT. Uma das palavras do ato no centro de São Paulo era defender a democracia – uma forma nada sutil de dizer que ela se encontra em risco, o que é um pouco deselegante em pleno processo eleitoral num país que hospeda o mais amplo regime de liberdades de sua história.

Parecia natural, para muitos eleitores com quem conversei, que ali se falasse que o país estava sob ameaça de cair numa ditadura de esquerda ou pelo menos sob um regime autoritário. Referindo-se às críticas do governo Lula à midia, uma professora de Direito chegou a me dizer que durante a campanha Dilma começara um “movimento para fechar os jornais.” Ouvi a reclamação de que a candidata do PT tem “orgulho” por sua participação na resistência armada ao regime militar, em vez de demonstrar “arrependimento” pelo que fez, o que seria muito mais do que um balanço critico do período. Um funcionário de banco reclamou que o vice Indio da Costa foi patrulhado quando falou das ligações do PT com as FARC e sustentou que o fato das duas siglas participarem de um mesmo parque jurássico da esquerda sul-americana (o Forum São Paulo) demonstra tais ligações. Combate-se a discriminalização do aborto com argumentos que colocam convicções sobre o tema acima dos direitos de escolha de cada mulher.

PT e PSDB nasceram em épocas diferentes da nossa história política, mas tiveram uma origem comum nos meios universitários e, em especial, na mobilização democrática que deu fim à ditadura militar. Lula fez campanha para eleger FHC no senado. A sigla tucana quer dizer: “Partido da Social Democracia Brasileira”. Num tempo em que o PT se proclamava socialista e tinha horror a assumir uma visão que em seu vocabulário remetia a pecados como reformismo e adesão a valores do capitalismo, os tucanos eram os baluartes da moderação. Seu universo era a centro-esquerda enquanto o PT era a esquerda. Personalidades como Franco Montoro lhe davam um parentesco com a Democracia Cristã chilena, aliada história do PS naquele país. Em 2010, o partido consumou um processo de quem reescreve a historia, redefine valores, alianças e posturas.

Qualquer que seja o resultado das urnas, amanhã, nesta campanha eleitoral o PSDB ficou longe daquela posição centrista que chegou a ocupar na política brasileira desde seu nascimento, entre o PT, na época muito mais à esquerda do que hoje, na vizinhança do PMDB e à esquerda do DEM e do PP. Na evolução dos confrontos e da luta pelo voto na campanha presidencial de 2010, os tucanos assumiram um discurso conservador puro e duro, doutrinário, como nunca se viu em sua história.

Em passado pouco distante, o PSDB se apresentava como a representação nacional da “modernidade” — em contraposição ao “atraso” na célebre formulação de Sergio Buarque de Hollanda que se tornou uma espécie de mantra tucano para se opor à esquerda em geral e ao PT em particular, embora o pai da idéia tenha assinado o manifesto de fundação petista. Desse ponto de vista, o PSDB seria expressão de uma cultura cosmopolita e tolerante, respeito pelas diferenças, favorável às liberdades do indivíduo e de sua autonomia para tomar decisões, fazer opções e organizar a vida. O ponto de partida dessa visão de mundo é emancipar a pessoa de imposições que falam em nome do coletivo, da sociedade e do Estado.

Em 2010 o partido agarrou-se ao extremismo católico e evangélico para buscar votos numa postura de quem dispensa a separação entre Igreja e Estado. Serra encerrou seu programa eleitoral com imagens de Bento XVI, representante da facção mais retrógrada da Igreja.

Bispos veteranos como dom Angélico Sandalo Bernardino, aliado fidelíssimo de Mario Covas em outros tempos, protetor de mobilizações operárias quando os sindicatos eram perseguidos, porta-voz da fatia mais popular da Igreja, pediu votos para Dilma Rousseff.

Num partido que foi berço de boa parte das lutas pelos direitos da mulher, a campanha tucana navegou um debate em torno do aborto que foi muito além de um confronto politico, com a criação de um ambiente de inquisição em que se deveria obrigar a adversária deveria “confessar” maus pensamentos ou arder nas chamas da intolerância. A partir daquele episódio que a crônica da campanha registrará como “o caso da bolinha de papel ” o PSDB tentou convencer o eleitorado de que o adversário é uma sigla intolerante e adepta de métodos violentos. Em poucos dias, o assunto inspirou uma competição de vídeos anti-Serra pela internet.

Criticada por esconder as bandeiras do partido e fugir de sua história, evitando aparições do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que provocaram queixas gerais no partido, a campanha de José Serra chegou ao fim da corrida eleitoral com um perfil bem diferente daquilo que o candidato exibiu na maior parte de sua carreira e também no início da campanha, quando se apresentava — um típico muro tucano, poderia observar um adversário — como uma espécie de continuação heteredoxa do governo Lula. Entrevistei a atriz Fernanda Montenegro numa festa de lançamento da novela Passione, ainda no primeiro turno. Perguntada sobre a eleição, ela deu uma resposta que resumia a visão de muitas pessoas naquele momento: se disse muito feliz porque o Brasil poderia optar por três candidaturas de esquerda. (Marina Silva era a terceira integrante do grupo).

Essa mudança é a questão que irá acompanhar o PSDB em seu futuro próximo e distante. Os tucanos fizeram campanhas diferentes no plano estadual e federal. Na campanha de Geraldo Alckmin, avalia-se que a campanha presidencial poderia ter obtido resultados melhores se não tivesse sido tão extremista. Critica-se a insistência em levantar a questão do aborto, assunto que muitos eleitores, mesmo religiosos, preferem nem comentar em suas vidas privadas — muito menos na campanha. Ouve-se, também, condenações aos ataques mais duros ao governo Lula, como no caso da bolinha de papel. Outra liderança importante, Aécio Neves, também marcou sua presença com uma postura diversa.

Estas diferenças não são novas e não terão importancia até a contagem de votos, amanhã à noite. Os rumos desse debate serão definidos, obviamente, pelo resultado da campanha presidencial, que irá traçar um quadro mais claro sobre a sucessão no Planalto e também no PSDB.

Friday, October 29, 2010

O rodeio dos imbecis

O rodeio dos imbecis
Ruth de Aquino
Revista Época
RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br

Universitários que “montam” à força em colegas gordas, numa competição para ver “qual peão” fica mais tempo sobre as meninas, são o retrato cru de uma sociedade doente e sem noção. O “rodeio das gordas” aconteceu em outubro em jogos oficiais de uma universidade importante, a Unesp, em São Paulo – não em algum rincão remoto. Não envolveu capiau nem analfabeto. Foi a elite brasileira, a que chega à universidade. Estamos no século XXI e assistimos perplexos à globalização da ignorância moral.

Mais de 50 rapazes, da Universidade Estadual de São Paulo, organizaram o ataque às gordas num evento esportivo e cultural com 15 mil universitários. Uma comunidade no Orkut definiu as regras: “Todo peão deve permanecer oito segundos segurando a gorda”; “gordas bandidas são mais valiosas”; “o corpo da gorda tem de ser grande, bem grande”. Os estudantes se aproximavam das meninas como se fossem paquerá-las. Aproveitavam para agarrá-las e montar nelas, e as que mais lutavam contra a agressão eram apelidadas de “gordas bandidas”. Uma referência ao touro Bandido, personagem da novela América. “A cada coice tomado, o peão guerreiro ganha 1 ponto”, anunciava o site de relacionamento.

A repercussão assustou os universitários. Roberto Negrini, um dos organizadores do torneio e filho de advogada, chamou tudo de “brincadeira”, mas pediu desculpas à diretoria da Unesp e se disse arrependido. Tentou convencer a todos de que “não houve preconceito”. Sites e blogs foram invadidos por comentários indignados. Mas havia muitos homens aplaudindo “a criatividade” dos estudantes. O internauta Arnaldo César Almeida, de São Paulo, propôs transformar a competição num “esporte olímpico”. Outro, que se identificou como Alexandre, escreveu: “Me divirto vendo esses kibes (sic) humanos dando coice! Vou até instalar uma baleia mecânica para treinar”.

Quem são os pais e as mães desses rapazes? A maior responsabilidade é da família. O que fez ou onde estava quem deveria tê-los educado com valores mínimos de cortesia e respeito ao próximo? Jovens adultos que agem assim foram, de alguma maneira, ignorados por seus pais ou receberam péssimos exemplos em casa e na comunidade onde cresceram.

O “rodeio das gordas”, promovido nos jogos da Unesp, é o retrato de uma sociedade doente

Não foi uma semana edificante. Meninas adolescentes, numa escola paulista em Mogi das Cruzes, trocaram socos. A mais agredida, de 14 anos, disse: “Alguns têm dó, mas outros ficam rindo porque eu apanhei”. Em Brasília, uma estudante usou a lâmina do apontador para navalhar o rosto e o pescoço da colega. No Rio de Janeiro, uma professora foi presa por manter relações sexuais com uma aluna de 13 anos. A loura da Uniban, Geisy Arruda, posou pelada, sem o microvestido rosa-choque, mostrando que tudo acaba na busca de fama e uns trocados.

Está na hora de adultos pensarem com cautela se querem colocar um filho no mundo. Se querem cuidar de verdade dessa criança. Ouvir, conversar, beijar, brincar, educar, punir, amparar, dedicar um tempo real para acompanhar seu crescimento, suas dúvidas e inquietações. Descaso, assédio moral e físico contra crianças, brigas entre pai e mãe, separações litigiosas podem levar a tragédias como a que matou a menina Joanna. Submetida a maus-tratos e negligência, Joanna talvez tenha simplesmente desistido de continuar no inferno em que se transformara sua vida aos 5 anos de idade.

Não sou moralista. Mas a sociedade mergulhou numa disputa de baixarias. As competições escancaradas na TV aberta, sob a chancela de “entretenimento”, estimulam a humilhação pública e a indignidade humana. Comer pizza de vermes e minhocas vivas, deixar ratos e cobras passear pelo corpo de uma moça de biquíni, resistir a vômitos, como prova de determinação e bravura – isso é exatamente o quê? Expor pessoas ao ridículo, enaltecer o lixo, a escória, em canais abertos a crianças e adolescentes... não seria inaceitável numa sociedade civilizada? Diante de alguns programas televisivos, o “rodeio das gordas” pode parecer brincadeira. Mas não é.

Wednesday, October 27, 2010

O Brasil é cego, mentiroso e desonesto?

http://www.jblog.com.br/rioacima.php
O Brasil é cego, mentiroso e desonesto?

26/10/2010 - 09:50 | Enviado por: Migliaccio
Fiquei meio deprimido depois do chatérrimo debate de ontem à noite na Record.

Quer dizer que eu vou votar numa mentirosa compulsiva? A única coisa que o José Serra fez a noite inteira foi dizer que Dilma mente. Minto. Ele também disse que ela está cercada por uma quadrilha, que o atual governo é uma corja que não fez nada a não ser roubar durante quatro anos. Nossa! Como eu sou ingênuo! Ou mal intencionado. Sim, porque, segundo o candidato tucano, vou votar para transformar o meu país numa ditadura de esquerda comandada por ladrões.

E como são truculentos e intolerantes esses petistas! Chico Buarque de Holanda e Leonardo Boff, por exemplo, não passam de notórios pitboys... não é, meu caro tucano?

Serra disse também que eu sou cego. Que tudo que o governo do PT anuncia que fez é "fantasia", que não há Plano de Aceleração do Crescimento, que nenhuma obra saiu do papel. Quando passo pela favela da Rocinha, em São Conrado, aqui no Rio, devo sofrer alucinações ao ver aquele grande canteiro de obras. O teleférico do Morro do Alemão? Quem o vê imponente na Zona Norte deve ter ingerido uns dez copos de chá de cogumelo.

O IBGE, a FGV, todos mentem descaradamente em seus indicadores. O país está ruim, uma porcaria, as pessoas estão tristes, sem dinheiro, sem emprego, sem comida. Os cofres públicos estão sendo saqueados. Esse é o Brasil que José Serra quis fazer existir diante das câmeras da TV Record. Para provar suas teorias, ele conta com o Jornal Nacional, aquele mesmo que jura que noticiou os comícios das Diretas-Já, que foi imparcial na edição do debate final de 1989 e que conseguiu "provar" que Serra quase morreu após levar uma bolinha de papel na calva. Bom, se o JN falou...

Serra, aquele que teve uma concussão cerebral atestada pelo médico de Cesar Maia, disse e repetiu no debate que o pouco que o PT fez em quatro anos foi copiado ou herdado dos dois governos do PSDB.

O candidato tucano precisava herdar todos os 19 milhões de votos dados a Marina Silva no primeiro turno. Pelas pesquisas, ficou só com cerca de 30%. Ou seja, está dez pontos atrás de Dilma Rousseff. Aí, calmamente como é do seu feitio, ele se desespera. Acusa Dilma de racismo por ela se referir a seu aliado corrupto como Paulo Preto.

Restou então a ele passar as duas horas de debate chamando sua adversária de mentirosa e dizendo que somos todos um bando de alucinados por enxergar obras que não passam de miragens.

Serra é o perfeito. O impoluto. Acusa Dilma de ter o apoio de Fernando Collor, como se Dilma pudesse obrigar Collor a parar de bajular Lula. Collor bajula quem quiser, assim como Sarney.

Assim como Cesar Maia, Jair Bolsonaro, Jorge Bornhausen, Marco Maciel são livres para apoiar Serra.

Dilma é ruim de microfone. Ficou nervosa de novo, deixou de responder a vários ataques do adversário, e foram muitos, ininterruptos.

Se eu fosse a Dilma, teria interrompido o debate na segunda vez que Serra a chamou de mentirosa. Porque ele estava chamando mais da metade da população brasileira de cega ou de desonesta.

O problema (para Serra) é que eu não estou votando para locutor de rádio, mas para presidente.

Saturday, October 16, 2010

Ex-aluna afirma que Monica Serra contou que fez um aborto

16.10.10 às 13h11 > Atualizado em 16.10.10 às 22h17

Ex-aluna afirma que Monica Serra contou que fez um aborto
Coreógrafa publicou na Internet que mulher de candidato falava da experiência traumática na sala de aula

Santa Catarina e Rio - Mulher de José Serra — candidato à Presidência pelo PSDB —, Sylvia Monica Allende Serra causou polêmica ao falar que a adversária do marido, Dilma Rousseff (PT), iria “matar criancinhas”, pois seria favorável à descriminalização do aborto. Na segunda-feira, o nome de Monica Serra voltou ao olho do furacão. A coreógrafa Sheila Canevacci Ribeiro, 38 anos — aluna de Monica nos tempos em que ela dava aulas para o curso de Dança na Unicamp, em Campinas (SP) —, divulgou relato na Internet afirmando que a esposa de Serra, que é chilena, confidenciou a alunas ter feito um aborto quando o marido estava exilado. Ontem à noite, a assessoria de Serra divulgou nota dizendo que Monica nunca fez aborto.
Foto: Divulgação
Monica Serra está no centro de uma nova polêmica | Foto: Divulgação

Intitulado “Respeitemos a dor de Monica Serra”, o relato foi publicado na página de Sheila no site de relacionamentos Facebook segunda-feira. Ela descreveu com detalhes o momento em que Monica Serra fez a confidência.

“Com todo respeito que devo a essa minha professora, gostaria de revelar publicamente que muitas de nossas aulas foram regadas a discussões sobre o aborto, sobre o seu aborto traumático. Mônica Serra fez um aborto. Na época da ditadura, grávida de quatro meses, Mônica Serra decidiu abortar, pois que seu marido estava exilado e todos vivíamos uma situação instável”, relatou no Facebook.

A decisão de publicar o relato, ela diz, foi tomada após assistir ao debate de domingo passado entre Serra e Dilma, na Band. Sheila não se conformou ao ver o silêncio de Serra quando questionado sobre a afirmação da esposa de que Dilma iria “matar criancinhas”.

“Ele não falou ‘sim, ela falou e eu concordo; ou então ‘sim, ela falou e eu não concordo’; ou ‘não, ela não falou’. Ele não falou nada, e eu fiquei com aquela inquietação. A falta de resposta do Serra é que me fez ter uma reflexão” afirmou Sheila. Sem filiação a partidos, ela afirmou ter votado em Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) no primeiro turno. No segundo, a coreógrafa defende o voto em Dilma.

Na sexta, em Santa Catarina, onde vive hoje, Sheila afirmou a O DIA que o testemunho a deixou bastante abalada. “Essa experiência me chocou. Lembro que a gente olhava para a cara dela e eu pensava ‘coitada, coitada dessa mulher’. E me lembro que, quando ela contava essas coisas, falava ‘agora, os tempos são outros’”, recordou.

Uma ex-colega de Sheila, que não permitiu a divulgação de sua identidade, também falou com O DIA e confirmou o episódio. Ela afirma que a confissão de Monica foi feita durante aula de Psicologia do Movimento, no primeiro semestre de 1992: “O assunto surgiu quando ela falava sobre como as transformações pelas quais o corpo passa influenciam em seu movimento”. Outra aluna, Ana Paula Camolese, que hoje mora na Inglaterra, não ouviu o relato de Monica, mas acredita na história: “O ambiente da faculdade era propício para dividir esse tipo de experência. Sheila não inventaria isso, sempre foi muito séria”.

Para PSDB: ‘Jogo sujo’

O DIA procurou a assessoria de José Serra desde quinta-feira, para que se pronunciasse sobre o testemunho de Sheila, mas não obteve resposta. A assessoria de imprensa da campanha de Serra afirmou que somente Monica poderia se pronunciar. Procurada, a assessoria de Monica disse que “não iria comentar o assunto”.

Ontem, uma nota foi divulgada. “Diante de matéria publicada hoje, a campanha de José Serra esclarece: Monica Serra nunca fez um aborto. Essa acusação falsa, que já circulava antes na Internet, repete o padrão Miriam Cordeiro de que o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva foi vítima na eleição de 1989. E dá continuidade ao jogo sujo que tem caracterizado a presente campanha desde que um núcleo do PT, montado para fazer dossiês contra o candidato tucano à Presidência, foi descoberto em Brasília. Primeiro atacaram a filha de José Serra. Depois atacaram o seu genro. Agora eles agridem a sua mulher, Monica, que tem a irrestrita solidariedade, amor e respeito de seu marido, de seus filhos, netos e de milhões de brasileiros”. A nota lembra a disputa entre Lula e Collor em 1989. Na ocasião, Collor exibiu depoimento de ex-namorada de Lula, Miriam Cordeiro, mãe de uma filha do petista, em que ela dizia que, ao saber da gravidez, Lula a aconselhou a abortar, causando polêmica e indignação".

Reportagem de Christina Nascimento e João Noé

Wednesday, October 13, 2010

LSD e a CIA: O governo americano e o lsd?

LSD e a CIA: O governo americano operou bordéis com lsd? Acredite!

original em History House

Ácido lisérgico de dietilamida, ou LSD, foi um sacramento de artistas, pretendentes a profetas e outros grupos sociais desde os anos sessenta. Inventado em 1938 pelo químico Dr. Albert Hofmann enquanto ele procurava por um analéptico (estimulante circulatório), ele descobriu que não tinha nenhum efeito em animais de laboratório e esqueceu tudo sobre o assunto. Anos depois, no fatídico dia de 16 de abril de 1953, ele absorveu acidentalmente um pouco de LSD pelas pontas dos dedos e embarcou na primeira viagem de ácido. Por essa época a CIA já tinha um programa em andamento há dez anos, procurando por drogas de interrogatório e soros da verdade. Eles tinham lidado com cafeína, barbitúricos, peyote e maconha. Eles também tentaram conseguir que sujeitos matassem enquanto estivessem sob hipnose, levando a uma operação que parece saída dos enredos de comédias. Martin A. Lee e Bruce Shlain relatam em seu livro Acid Dreams: The CIA, LSD, and the Sixties Rebellion, que antes de 1953 a CIA havia autorizado o projeto MK-ULTRA, com o objetivo de aperfeiçoar drogas de controle da mente durante a Guerra Fria.

Concebido por Richard Helms do Departamento de Serviços Clandestinos (sim, a CIA realmente dá para seus departamentos nomes bobos assim), ele foi além da construção de meros soros da verdade e se aventurou em desinformação, indução de loucura temporária e outros estados quimicamente-induzidos. O diretor do MK-ULTRA, Dr. Sidney Gottlieb, concluiu que o potencial do LSD como agente interrogatório mal se comparava com a sua capacidade para humilhar publicamente. Lee e Shlain notam que a CIA imaginou que fazer uma figura pública embarcar em uma viagem poderia ser divertido, produzindo um memorando dizendo que dar ácido "a altos funcionários seria algo relativamente simples e poderia ter um efeito significante em reuniões fundamentais, discursos, etc." Mas Gottlieb sabia que dar LSD a pessoas no laboratório era muito diferente de apenas passá-lo para fora, e sentiu que o departamento não tinha uma noção adequada de seus efeitos. Assim a operação inteira passou a ser aprender como tudo era, e, de acordo com Lee e Shlain,

concordaram entre eles inserir LSD nas bebidas uns dos outros. O alvo nunca sabia quando seria sua vez, mas assim que a droga fosse ingerida um… colega lhe falaria para que ele pudesse tomar as preparações necessárias (que normalmente significavam tirar o resto do dia de folga). Inicialmente os líderes do MK-ULTRA restringiram os teste surpresa de ácido a [seus próprios] membros, mas quando esta fase tinha completado seu curso eles começaram dosando outro pessoal da Agência que nunca tinha viajado antes. Quase todo o mundo estava a risco, e viagens de ácido surpresa tornaram-se algo como um risco ocupacional entre os funcionários da CIA…. O Escritório de Segurança sentiu que [o MK-ULTRA] deveria ter exercitado um julgamento melhor ao lidar com tal substância química poderosa e perigosa. A gota d’água veio quando um informante de Segurança descobriu um plano de alguns brincalhões [do MK-ULTRA} para colocar LSD no ponche servido na festa anual de Natal do escritório da CIA... um escritor de memorando de Segurança...concluiu indignada e inequivocamente que ele 'não recomenda testar nas poncheiras de Natal presentes nas festas de Natal do escritório.’

Com o fim da fase de teste em casa, o MK-ULTRA decidiu usar a droga sorrateiramente na rua para medir seus efeitos. Eles contrataram George Hunter White, oficial da narcóticos, para montar a Operação Clímax da Meia-noite (Midnight Climax), de acordo com Lee e Shlain, "na qual foram contratadas prostitutas viciadas em droga para apanhar homens nos bares locais e levá-los a um bordel financiado pela CIA. Os clientes desavisados eram levados a bebidas com LSD enquanto White sentava em um banheiro portátil atrás de espelhos de duas-faces, tomando martínis e assistindo toda ação dopada e pervertida". Lee e Shlain continuam e comentam, "quando [White] não estava operando um bordel de segurança nacional", ele deu festas animais para seus "amigos da narc[óticos]" com a provisão pronta dele de prostitutas e drogas. Ele enviou vales para "despesas não ortodoxas" para Gottlieb, e depois disse, "eu era um missionário muito secundário, de fato um herege, mas eu labutei de coração nos vinhedos porque era divertido, divertido, divertido. Onde mais poderia um garoto americano mentir, matar, trapacear, roubar, estuprar e pilhar com a sanção e benção do Todo Poderoso?" No caso de precisarmos lembrar, estas alegações são apoiadas através de informação recentemente liberada pelo governo. Sim, Virgínia, a verdade é mais estranha que ficção.

Enquanto isso, de volta a casa, o general maior William Creasy, oficial líder do Corpo Químico do Exército na época, achava que substâncias químicas psicoativas como o LSD seriam as armas do futuro. Ele sentia que, digamos, contaminar a provisão de água de uma cidade com ácido e assumir o controle seriam muito mais humanitários que bombardeá-la. "Eu não nego", ele contou à revista This Week em maio de 1959, "que levar as pessoas à loucura até mesmo durante algumas horas não seja um prospecto agradável. Mas guerra nunca é agradável… você preferiria ser lesado temporariamente… por um agente químico ou queimado vivo…? " Isto soa humanitário: por que matar se isso for desnecessário, não? Infelizmente, Creasy não era só rosas. Lee e Shlain revelam que

O general maior Creasy lamentou o fato que testes em larga escala de armas psicoquímicas foram proibidos nos Estados Unidos. "Eu estava tentando levar a cabo, com uma boa história de cobertura", ele murmurou, "testar para ver o que aconteceria em metrôs, por exemplo, quando uma nuvem era lançada em uma cidade. Foi negado por razões que sempre pareciam um pouco absurdas para mim.”

General maior? E eles dizem que o Exército é uma verdadeira meritocracia…. De qualquer maneira, para não ser vencido pela CIA, o Corpo Químico do Exército posteriormente chegou ao benzilato de quinuclidinil, ou BZ, chamado de um super-alucinógeno. Afetava os indivíduos durante três dias, "embora sintomas – dores de cabeça, vertigem, desorientação, alucinações audíveis e visuais e comportamento maníaco – sejam de conhecimento para persistir tanto quanto seis semanas." Caramba!

Dr. Van Sim, chefe da Divisão de Pesquisa Clínica, tentou todas as substâncias químicas novas nele antes de sujeitá-las a seus voluntários. "Será que ele gostava de ficar alto, ou as viagens ácidas dele eram simplesmente um dever patriótico? " perguntam Lee e Shlain. Sim, que tinha experimentado ácido em "várias" ocasiões informou, "não é uma questão de compulsão ou querer ser o primeiro a experimentar um material." Ele descreveu a primeira experiência dele depois com BZ: "Ele me atingiu durante três dias. Eu continuei caindo e as pessoas no laboratório nomearam alguém para me seguir com um colchão." Ele posteriormente recebeu a Condecoração por Serviço Civil Excepcional, citado por "se expor a ‘drogas perigosas’ ao risco de dano pessoal sério". Falando em dormir no trabalho….

Em torno de 2800 soldados foram expostos subseqüentemente a BZ, a maioria deles conscientemente. O soldado da Força aérea Robert Bowen notou que um pára-quedista perdeu temporariamente todo o controle muscular e depois pareceu
louco: "A última vez que o vi ele estava tomando uma ducha usando seu uniforme e fumando um charuto." Nós achamos que uma alternativa aceitável para um arsenal nuclear possa estar por aqui, mas sentimos que poderia convir ao Governo deixar de abusar de seu próprio exército e dirigir seus esforços exclusivamente a aqueles, digamos, em posições de administração medianas.

Leitura adicional recomendada:

Aqueles querendo saber mais sobre o uso de drogas ao longo de história fariam bem em investigar algum de nosso outro material aqui na History House no assunto que varia de drogas casuais como cafeína e ópio, a óxido nitroso e o advento da anestesia e uma boa dose de risada (partes um e dois). Se você se interessar por conspirações governamentais, você não pode deixar de conferi os altamente divertidos (e improváveis) planos para matar Fidel Castro.

Bibliografia

Martin Lee and Bruce Shlain. Acid Dreams: The CIA, LSD, and the Sixties Rebellion. Grove Press, 1986.Grove Press, 1986.

LSD e a CIA: O governo americano e o lsd?

LSD e a CIA: O governo americano operou bordéis com lsd?


original em History House

Ácido lisérgico de dietilamida, ou LSD, foi um sacramento de artistas, pretendentes a profetas e outros grupos sociais desde os anos sessenta. Inventado em 1938 pelo químico Dr. Albert Hofmann enquanto ele procurava por um analéptico (estimulante circulatório), ele descobriu que não tinha nenhum efeito em animais de laboratório e esqueceu tudo sobre o assunto. Anos depois, no fatídico dia de 16 de abril de 1953, ele absorveu acidentalmente um pouco de LSD pelas pontas dos dedos e embarcou na primeira viagem de ácido. Por essa época a CIA já tinha um programa em andamento há dez anos, procurando por drogas de interrogatório e soros da verdade. Eles tinham lidado com cafeína, barbitúricos, peyote e maconha. Eles também tentaram conseguir que sujeitos matassem enquanto estivessem sob hipnose, levando a uma operação que parece saída dos enredos de comédias. Martin A. Lee e Bruce Shlain relatam em seu livro Acid Dreams: The CIA, LSD, and the Sixties Rebellion, que antes de 1953 a CIA havia autorizado o projeto MK-ULTRA, com o objetivo de aperfeiçoar drogas de controle da mente durante a Guerra Fria.

Concebido por Richard Helms do Departamento de Serviços Clandestinos (sim, a CIA realmente dá para seus departamentos nomes bobos assim), ele foi além da construção de meros soros da verdade e se aventurou em desinformação, indução de loucura temporária e outros estados quimicamente-induzidos. O diretor do MK-ULTRA, Dr. Sidney Gottlieb, concluiu que o potencial do LSD como agente interrogatório mal se comparava com a sua capacidade para humilhar publicamente. Lee e Shlain notam que a CIA imaginou que fazer uma figura pública embarcar em uma viagem poderia ser divertido, produzindo um memorando dizendo que dar ácido "a altos funcionários seria algo relativamente simples e poderia ter um efeito significante em reuniões fundamentais, discursos, etc." Mas Gottlieb sabia que dar LSD a pessoas no laboratório era muito diferente de apenas passá-lo para fora, e sentiu que o departamento não tinha uma noção adequada de seus efeitos. Assim a operação inteira passou a ser aprender como tudo era, e, de acordo com Lee e Shlain,

concordaram entre eles inserir LSD nas bebidas uns dos outros. O alvo nunca sabia quando seria sua vez, mas assim que a droga fosse ingerida um… colega lhe falaria para que ele pudesse tomar as preparações necessárias (que normalmente significavam tirar o resto do dia de folga). Inicialmente os líderes do MK-ULTRA restringiram os teste surpresa de ácido a [seus próprios] membros, mas quando esta fase tinha completado seu curso eles começaram dosando outro pessoal da Agência que nunca tinha viajado antes. Quase todo o mundo estava a risco, e viagens de ácido surpresa tornaram-se algo como um risco ocupacional entre os funcionários da CIA…. O Escritório de Segurança sentiu que [o MK-ULTRA] deveria ter exercitado um julgamento melhor ao lidar com tal substância química poderosa e perigosa. A gota d’água veio quando um informante de Segurança descobriu um plano de alguns brincalhões [do MK-ULTRA} para colocar LSD no ponche servido na festa anual de Natal do escritório da CIA... um escritor de memorando de Segurança...concluiu indignada e inequivocamente que ele 'não recomenda testar nas poncheiras de Natal presentes nas festas de Natal do escritório.’

Com o fim da fase de teste em casa, o MK-ULTRA decidiu usar a droga sorrateiramente na rua para medir seus efeitos. Eles contrataram George Hunter White, oficial da narcóticos, para montar a Operação Clímax da Meia-noite (Midnight Climax), de acordo com Lee e Shlain, "na qual foram contratadas prostitutas viciadas em droga para apanhar homens nos bares locais e levá-los a um bordel financiado pela CIA. Os clientes desavisados eram levados a bebidas com LSD enquanto White sentava em um banheiro portátil atrás de espelhos de duas-faces, tomando martínis e assistindo toda ação dopada e pervertida". Lee e Shlain continuam e comentam, "quando [White] não estava operando um bordel de segurança nacional", ele deu festas animais para seus "amigos da narc[óticos]" com a provisão pronta dele de prostitutas e drogas. Ele enviou vales para "despesas não ortodoxas" para Gottlieb, e depois disse, "eu era um missionário muito secundário, de fato um herege, mas eu labutei de coração nos vinhedos porque era divertido, divertido, divertido. Onde mais poderia um garoto americano mentir, matar, trapacear, roubar, estuprar e pilhar com a sanção e benção do Todo Poderoso?" No caso de precisarmos lembrar, estas alegações são apoiadas através de informação recentemente liberada pelo governo. Sim, Virgínia, a verdade é mais estranha que ficção.

Enquanto isso, de volta a casa, o general maior William Creasy, oficial líder do Corpo Químico do Exército na época, achava que substâncias químicas psicoativas como o LSD seriam as armas do futuro. Ele sentia que, digamos, contaminar a provisão de água de uma cidade com ácido e assumir o controle seriam muito mais humanitários que bombardeá-la. "Eu não nego", ele contou à revista This Week em maio de 1959, "que levar as pessoas à loucura até mesmo durante algumas horas não seja um prospecto agradável. Mas guerra nunca é agradável… você preferiria ser lesado temporariamente… por um agente químico ou queimado vivo…? " Isto soa humanitário: por que matar se isso for desnecessário, não? Infelizmente, Creasy não era só rosas. Lee e Shlain revelam que

O general maior Creasy lamentou o fato que testes em larga escala de armas psicoquímicas foram proibidos nos Estados Unidos. "Eu estava tentando levar a cabo, com uma boa história de cobertura", ele murmurou, "testar para ver o que aconteceria em metrôs, por exemplo, quando uma nuvem era lançada em uma cidade. Foi negado por razões que sempre pareciam um pouco absurdas para mim.”

General maior? E eles dizem que o Exército é uma verdadeira meritocracia…. De qualquer maneira, para não ser vencido pela CIA, o Corpo Químico do Exército posteriormente chegou ao benzilato de quinuclidinil, ou BZ, chamado de um super-alucinógeno. Afetava os indivíduos durante três dias, "embora sintomas – dores de cabeça, vertigem, desorientação, alucinações audíveis e visuais e comportamento maníaco – sejam de conhecimento para persistir tanto quanto seis semanas." Caramba!

Dr. Van Sim, chefe da Divisão de Pesquisa Clínica, tentou todas as substâncias químicas novas nele antes de sujeitá-las a seus voluntários. "Será que ele gostava de ficar alto, ou as viagens ácidas dele eram simplesmente um dever patriótico? " perguntam Lee e Shlain. Sim, que tinha experimentado ácido em "várias" ocasiões informou, "não é uma questão de compulsão ou querer ser o primeiro a experimentar um material." Ele descreveu a primeira experiência dele depois com BZ: "Ele me atingiu durante três dias. Eu continuei caindo e as pessoas no laboratório nomearam alguém para me seguir com um colchão." Ele posteriormente recebeu a Condecoração por Serviço Civil Excepcional, citado por "se expor a ‘drogas perigosas’ ao risco de dano pessoal sério". Falando em dormir no trabalho….

Em torno de 2800 soldados foram expostos subseqüentemente a BZ, a maioria deles conscientemente. O soldado da Força aérea Robert Bowen notou que um pára-quedista perdeu temporariamente todo o controle muscular e depois pareceu
louco: "A última vez que o vi ele estava tomando uma ducha usando seu uniforme e fumando um charuto." Nós achamos que uma alternativa aceitável para um arsenal nuclear possa estar por aqui, mas sentimos que poderia convir ao Governo deixar de abusar de seu próprio exército e dirigir seus esforços exclusivamente a aqueles, digamos, em posições de administração medianas.

Leitura adicional recomendada:

Aqueles querendo saber mais sobre o uso de drogas ao longo de história fariam bem em investigar algum de nosso outro material aqui na History House no assunto que varia de drogas casuais como cafeína e ópio, a óxido nitroso e o advento da anestesia e uma boa dose de risada (partes um e dois). Se você se interessar por conspirações governamentais, você não pode deixar de conferi os altamente divertidos (e improváveis) planos para matar Fidel Castro.

Bibliografia

Martin Lee and Bruce Shlain. Acid Dreams: The CIA, LSD, and the Sixties Rebellion. Grove Press, 1986.Grove Press, 1986.

LSD e a CIA: O governo americano e o lsd?

LSD e a CIA: O governo americano operou bordéis com lsd?

original em History House

Ácido lisérgico de dietilamida, ou LSD, foi um sacramento de artistas, pretendentes a profetas e outros grupos sociais desde os anos sessenta. Inventado em 1938 pelo químico Dr. Albert Hofmann enquanto ele procurava por um analéptico (estimulante circulatório), ele descobriu que não tinha nenhum efeito em animais de laboratório e esqueceu tudo sobre o assunto. Anos depois, no fatídico dia de 16 de abril de 1953, ele absorveu acidentalmente um pouco de LSD pelas pontas dos dedos e embarcou na primeira viagem de ácido. Por essa época a CIA já tinha um programa em andamento há dez anos, procurando por drogas de interrogatório e soros da verdade. Eles tinham lidado com cafeína, barbitúricos, peyote e maconha. Eles também tentaram conseguir que sujeitos matassem enquanto estivessem sob hipnose, levando a uma operação que parece saída dos enredos de comédias. Martin A. Lee e Bruce Shlain relatam em seu livro Acid Dreams: The CIA, LSD, and the Sixties Rebellion, que antes de 1953 a CIA havia autorizado o projeto MK-ULTRA, com o objetivo de aperfeiçoar drogas de controle da mente durante a Guerra Fria.

Concebido por Richard Helms do Departamento de Serviços Clandestinos (sim, a CIA realmente dá para seus departamentos nomes bobos assim), ele foi além da construção de meros soros da verdade e se aventurou em desinformação, indução de loucura temporária e outros estados quimicamente-induzidos. O diretor do MK-ULTRA, Dr. Sidney Gottlieb, concluiu que o potencial do LSD como agente interrogatório mal se comparava com a sua capacidade para humilhar publicamente. Lee e Shlain notam que a CIA imaginou que fazer uma figura pública embarcar em uma viagem poderia ser divertido, produzindo um memorando dizendo que dar ácido "a altos funcionários seria algo relativamente simples e poderia ter um efeito significante em reuniões fundamentais, discursos, etc." Mas Gottlieb sabia que dar LSD a pessoas no laboratório era muito diferente de apenas passá-lo para fora, e sentiu que o departamento não tinha uma noção adequada de seus efeitos. Assim a operação inteira passou a ser aprender como tudo era, e, de acordo com Lee e Shlain,

concordaram entre eles inserir LSD nas bebidas uns dos outros. O alvo nunca sabia quando seria sua vez, mas assim que a droga fosse ingerida um… colega lhe falaria para que ele pudesse tomar as preparações necessárias (que normalmente significavam tirar o resto do dia de folga). Inicialmente os líderes do MK-ULTRA restringiram os teste surpresa de ácido a [seus próprios] membros, mas quando esta fase tinha completado seu curso eles começaram dosando outro pessoal da Agência que nunca tinha viajado antes. Quase todo o mundo estava a risco, e viagens de ácido surpresa tornaram-se algo como um risco ocupacional entre os funcionários da CIA…. O Escritório de Segurança sentiu que [o MK-ULTRA] deveria ter exercitado um julgamento melhor ao lidar com tal substância química poderosa e perigosa. A gota d’água veio quando um informante de Segurança descobriu um plano de alguns brincalhões [do MK-ULTRA} para colocar LSD no ponche servido na festa anual de Natal do escritório da CIA... um escritor de memorando de Segurança...concluiu indignada e inequivocamente que ele 'não recomenda testar nas poncheiras de Natal presentes nas festas de Natal do escritório.’

Com o fim da fase de teste em casa, o MK-ULTRA decidiu usar a droga sorrateiramente na rua para medir seus efeitos. Eles contrataram George Hunter White, oficial da narcóticos, para montar a Operação Clímax da Meia-noite (Midnight Climax), de acordo com Lee e Shlain, "na qual foram contratadas prostitutas viciadas em droga para apanhar homens nos bares locais e levá-los a um bordel financiado pela CIA. Os clientes desavisados eram levados a bebidas com LSD enquanto White sentava em um banheiro portátil atrás de espelhos de duas-faces, tomando martínis e assistindo toda ação dopada e pervertida". Lee e Shlain continuam e comentam, "quando [White] não estava operando um bordel de segurança nacional", ele deu festas animais para seus "amigos da narc[óticos]" com a provisão pronta dele de prostitutas e drogas. Ele enviou vales para "despesas não ortodoxas" para Gottlieb, e depois disse, "eu era um missionário muito secundário, de fato um herege, mas eu labutei de coração nos vinhedos porque era divertido, divertido, divertido. Onde mais poderia um garoto americano mentir, matar, trapacear, roubar, estuprar e pilhar com a sanção e benção do Todo Poderoso?" No caso de precisarmos lembrar, estas alegações são apoiadas através de informação recentemente liberada pelo governo. Sim, Virgínia, a verdade é mais estranha que ficção.

Enquanto isso, de volta a casa, o general maior William Creasy, oficial líder do Corpo Químico do Exército na época, achava que substâncias químicas psicoativas como o LSD seriam as armas do futuro. Ele sentia que, digamos, contaminar a provisão de água de uma cidade com ácido e assumir o controle seriam muito mais humanitários que bombardeá-la. "Eu não nego", ele contou à revista This Week em maio de 1959, "que levar as pessoas à loucura até mesmo durante algumas horas não seja um prospecto agradável. Mas guerra nunca é agradável… você preferiria ser lesado temporariamente… por um agente químico ou queimado vivo…? " Isto soa humanitário: por que matar se isso for desnecessário, não? Infelizmente, Creasy não era só rosas. Lee e Shlain revelam que

O general maior Creasy lamentou o fato que testes em larga escala de armas psicoquímicas foram proibidos nos Estados Unidos. "Eu estava tentando levar a cabo, com uma boa história de cobertura", ele murmurou, "testar para ver o que aconteceria em metrôs, por exemplo, quando uma nuvem era lançada em uma cidade. Foi negado por razões que sempre pareciam um pouco absurdas para mim.”

General maior? E eles dizem que o Exército é uma verdadeira meritocracia…. De qualquer maneira, para não ser vencido pela CIA, o Corpo Químico do Exército posteriormente chegou ao benzilato de quinuclidinil, ou BZ, chamado de um super-alucinógeno. Afetava os indivíduos durante três dias, "embora sintomas – dores de cabeça, vertigem, desorientação, alucinações audíveis e visuais e comportamento maníaco – sejam de conhecimento para persistir tanto quanto seis semanas." Caramba!

Dr. Van Sim, chefe da Divisão de Pesquisa Clínica, tentou todas as substâncias químicas novas nele antes de sujeitá-las a seus voluntários. "Será que ele gostava de ficar alto, ou as viagens ácidas dele eram simplesmente um dever patriótico? " perguntam Lee e Shlain. Sim, que tinha experimentado ácido em "várias" ocasiões informou, "não é uma questão de compulsão ou querer ser o primeiro a experimentar um material." Ele descreveu a primeira experiência dele depois com BZ: "Ele me atingiu durante três dias. Eu continuei caindo e as pessoas no laboratório nomearam alguém para me seguir com um colchão." Ele posteriormente recebeu a Condecoração por Serviço Civil Excepcional, citado por "se expor a ‘drogas perigosas’ ao risco de dano pessoal sério". Falando em dormir no trabalho….

Em torno de 2800 soldados foram expostos subseqüentemente a BZ, a maioria deles conscientemente. O soldado da Força aérea Robert Bowen notou que um pára-quedista perdeu temporariamente todo o controle muscular e depois pareceu
louco: "A última vez que o vi ele estava tomando uma ducha usando seu uniforme e fumando um charuto." Nós achamos que uma alternativa aceitável para um arsenal nuclear possa estar por aqui, mas sentimos que poderia convir ao Governo deixar de abusar de seu próprio exército e dirigir seus esforços exclusivamente a aqueles, digamos, em posições de administração medianas.

Leitura adicional recomendada:

Aqueles querendo saber mais sobre o uso de drogas ao longo de história fariam bem em investigar algum de nosso outro material aqui na History House no assunto que varia de drogas casuais como cafeína e ópio, a óxido nitroso e o advento da anestesia e uma boa dose de risada (partes um e dois). Se você se interessar por conspirações governamentais, você não pode deixar de conferi os altamente divertidos (e improváveis) planos para matar Fidel Castro.

Bibliografia

Martin Lee and Bruce Shlain. Acid Dreams: The CIA, LSD, and the Sixties Rebellion. Grove Press, 1986.Grove Press, 1986.

Tuesday, October 12, 2010

O 'homem-bomba' dos tucanos

O 'homem-bomba' dos tucanos

Fernando Mello e Marina Dias

Como diretor de Engenharia do Dersa, Paulo Vieira de Souza, também conhecido pelo apelido de Paulo Preto, foi responsável pelas grandes obras viárias do governo de São Paulo nos últimos três anos. Seu trabalho lhe rendeu, em dezembro de 2009, o prêmio de profissional do ano do Instituto de Engenharia de São Paulo. Em 1º de abril deste ano, ele festejou a inauguração do trecho sul do Rodoanel. Oito dias depois, no entanto, foi demitido de seu cargo. A decisão da cúpula da Dersa foi unânime. A nota no Diário Oficial, publicada no dia 21 de abril, não informa a causa da exoneração – e a assessoria de imprensa da empresa afirma apenas que foi uma "decisão de governo". Mas razões extra-oficiais não faltam. Vieira de Souza aparece em uma série de documentos apreendidos pela Polícia Federal na Operação Castelo de Areia, que investigou a empreiteira Camargo Corrêa entre 2008 e 2009. Pelo menos quatro desses documentos, obtidos com exclusividade por VEJA.com, trazem indícios de que o engenheiro era destinatário de propinas da construtora. Um dos papéis mostra quatro pagamentos mensais de 416.500 reais, com data inicial de 20 de dezembro de 2007. A Castelo de Areia foi suspensa, em janeiro deste ano, por uma liminar do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Vieira de Souza, estranhamente, não foi indiciado na primeira fase da operação, e talvez nunca venha a ser. Mas, em ano eleitoral, tornou-se um "homem-bomba".

Ele tem estreitas ligações políticas e pessoais com Aloysio Nunes Ferreira Filho, ex-secretário da Casa Civil de São Paulo e candidato do PSDB-SP ao Senado. Vieira de Souza e Aloysio se conhecem há mais de 20 anos. Quando, no ano passado, o tucano sonhou em ser o candidato de seu partido ao governo de São Paulo, Vieira de Souza foi apresentado como seu "interlocutor" junto ao empresariado. A proximidade entre os dois é tão grande que a família dele contribuiu para que o ex-secretário comprasse seu apartamento. A filha do engenheiro, a advogada Priscila Arana de Souza, e sua mãe, Ruth de Souza, fizeram um empréstimo de 300.000 reais ao tucano — dos quais a advogada arcou com 250.000 reais, conforme revelou o jornal Folha de S. Paulo em dezembro. "A filha dele me emprestou um dinheiro para eu comprar um imóvel, pois eu queria fechar negócio e não podia esperar sair o financiamento do banco. Paguei à Priscila no ano passado mesmo, em três ou quatro prestações. Tenho meus cheques todos registrados. Está tudo correto e documentado", diz Aloysio. A assessoria do ex-secretário enviou uma relação de seis cheques de três bancos diferentes, relacionados ao pagamento da dívida. Cinco deles são de 2008: dois no valor de 50.000 reais, um no valor de 60.000 reais, um de 81.000 reais e o último, de 19.000 reais. Há também um cheque de 50.000 reais de maio de 2009.

Na versão de Aloysio, a demissão do amigo Vieira de Souza até parece voluntária. "Ele pretendia deixar o governo após a inauguração do Rodoanel", diz. "Foi inaugurado e ele saiu." Souza é mais duro ao falar do assunto. Atribui a demissão a atritos causados pelo seu estilo de trabalho, de dura cobrança de prazos. "Sempre disse que o Rodoanel tinha dia e hora para acabar. E isso incomoda", afirma. "Mas não importa. O Brasil inteiro sabe que o protagonista do Rodoanel fui eu. Não faz diferença se estou dentro ou fora do governo." O engenheiro rebate a tese de que sua exoneração poderia estar ligada às investigações sobre a Camargo Corrêa. "Não tem nada contra mim na Operação", diz ele.

Vieira de Souza tem razão em relação ao relatório final da PF. Seu nome tem uma única menção breve no documento, e ele não faz parte do rol dos indiciados. No relatório de inteligência, que serviu de base para o inquérito, a história é outra. É lá que estão reproduzidos os papeis que sugerem que ele recebeu propina da construtora. As obras do Rodoanel apareciam nas anotações com a sigla ARO, decifrada com informações retiradas do computador da secretária pessoal de Pietro Bianchi, diretor da Camargo, empresa que cuidou do lote 4 do trecho Sul, orçado em 500 milhões de reais. Esse mesmo relatório de inteligência traz dezenas de menções a políticos dos mais diferentes partidos. Há inclusive uma extensa lista de doações eleitorais registradas como "sem recibo" – uma forma oblíqua de definir o caixa dois.

A Operação Castelo de Areia foi deflagrada em março de 2009. A informação de que a investigação tinha potencial para abalar as carreiras de diversos políticos e administradores públicos veio à tona logo em seguida. A PF afirmou que trataria desses assuntos em um momento posterior. Passaram-se nove meses, nada aconteceu e a operação foi suspensa pela Justiça, quase como num passe de mágica. O fato de que os indícios coletados pela PF não ganhem consequências práticas é pernicioso. Ao contrário do que Vieira de Souza diz, existe, sim, material contra ele nos arquivos da PF. Material suficiente para que o Ministério Público Federal em São Paulo considerasse necessária uma investigação mais aprofundada sobre ele. Mas a questão não é apenas punir aqueles que merecerem castigo. Quando informações desse tipo ficam no limbo, caso daquelas que constam dos relatórios de inteligência da PF e sem mais nem menos desaparecem dos relatórios finais que embasam a abertura de inquéritos, cria-se espaço para que entrem em campo os fabricadores de dossiês — um tipo de fauna que insiste em reaparecer das trevas em anos eleitorais.

Comentários

Serra defende ex-diretor da Dersa acusado de desviar R$ 4 mi

2/10/2010 - 16h08

Em Aparecida, Serra defende ex-diretor da Dersa acusado por Dilma de desviar R$ 4 mi

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BRENO COSTA
ENVIADO ESPECIAL A APARECIDA

O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, saiu nesta terça-feira em defesa do ex-diretor de engenharia da Dersa (estatal paulista responsável por obras viárias) Paulo Vieira de Souza.

Conhecido como Paulo Preto, ele foi citado pela candidata Dilma Rousseff (PT) no último domingo, durante debate na Band. Dilma afirmou que ele desviou R$ 4 milhões originalmente destinados para a campanha de Serra.

Engenheiro citado por Dilma em debate cobra 'resposta pública' de Serra e critica petista
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Em entrevista publicada hoje pela Folha, Paulo Preto, exonerado da Dersa em abril, afirma que Serra o conhece e, em tom de ameaça, diz que "não se larga um líder ferido na estrada a troco de nada". "Não cometam esse erro", afirmou.

Danilo Verpa - 30.mar.2010/Folhapress
Na foto, Serra (de gravata) aparece junto com Paulo Preto, que está agachado, de camisa
Na foto, Serra (de gravata) aparece junto com Paulo Preto, que está agachado, de camisa

Após participar de missa solene em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, na Basílica de Nossa Senhora, em Aparecida (SP), Serra minimizou a importância do caso, disse não ter lido as declarações do ex-diretor e afirmou que "a acusação contra ele é injusta" e que o engenheiro é "totalmente inocente".

"Acho curioso dar ao fato uma importância que de fato ele não tem", disse Serra. "A acusação contra ele é injusta. Não houve desvio de dinheiro de campanha por parte de ninguém, nem do Paulo Souza."

Perguntado, Serra não respondeu se conhecia efetivamente Paulo Preto. "Ele é considerado uma pessoa muito competente e ganhou até o prêmio de Engenheiro do Ano, no ano passado. Nunca recebi nenhuma acusação a respeito dele durante sua atuação no governo", disse.

O tucano afirmou que não falou sobre o assunto durante o debate porque a afirmação de Dilma foi feita numa tréplica a que a candidata tinha direito. A acusação de Dilma, baseada em reportagem da revista "IstoÉ", foi reproduzida em seu programa eleitoral na TV.

O candidato tucano insinuou que, ao jogar na campanha o nome de Paulo Preto, Dilma buscou desviar a atenção em relação às denúncias de lobby na Casa Civil.

"O curioso é que Dilma está preocupada com problemas internos da nossa campanha quando a nossa preocupação é com o destino do dinheiro da Casa Civil, dinheiro público, dinheiro dos contribuintes. Não é dinheiro que algum empresário doou para uma campanha", afirmou Serra.

O tucano acusou Dilma e o PT de produzir um "factoide para pegar na imprensa". "Estão fazendo uma tempestade não é num copo, é num cálice de água", disse.

Serra também negou relação entre o caso e a ausência, na missa, do senador eleito por São Paulo, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB). A filha de Paulo Vieira de Souza emprestou R$ 300 mil a Aloysio, quando o tucano ainda chefiava a Casa Civil do governo Serra, para a compra de um apartamento.

"Isso aí é uma coisa de relações pessoais. Não vejo nada de especial nisso", disse Serra.

MISSA

Serra esteve hoje de manhã à missa solene em homenagem à padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. O governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e o vice de Serra, Indio da Costa (DEM), também acompanharam a missa.

O tucano, acompanhado da mulher, Mônica, foi muito assediado e chegou a ser citado no início do sermão do cardeal arcebispo de Belo Horizonte, dom Serafim Fernandes Araújo, que celebrou a missa, acompanhada por cerca de 35 mil fieis, segundo a direção da basílica.

Após a homilia, foi pedido que os fieis orassem "para que os eleitores votem com consciência e que os eleitos atendam os anseios de paz, justiça e desenvolvimento de todos os brasileiros".

Em seguida, Mônica Serra foi chamada ao altar para receber uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, que será levada por ela aos mineiros soterrados no Chile, cujo resgate deve começar hoje à noite.

Quando FHC tentou privatizar Furnas – e Itamar Franco impediu

11 de outubro de 2010 às 15:41

Quando FHC tentou privatizar Furnas – e Itamar Franco impediu

da leitora Elaine

Saturday, October 09, 2010

Uma enorme hipocrisia eleitoral

Uma enorme hipocrisia eleitoral
O debate sobre o aborto é uma manobra primária. Dilma e Serra têm opiniões parecidas sobre o tema
Ruth de Aquino
Época
RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br

O resultado do primeiro turno agitou alguns personagens e desmascarou vários. É a coceira do poder. A traição aos outros e a si mesmo é o tempero básico do banquete eleitoral. Quem não tem estômago de político digere mal a deslealdade, mas os candidatos comem e rezam conforme o voto da massa. É positivo para o Brasil ter a chance de aprofundar o debate inteligente e real. Vamos conseguir?

É positivo que as urnas tenham forçado Serra e Dilma a mostrar mais a cara e formular compromissos de governo. É mais fácil para o político trair promessas verbais, assopradas no calor da carreata, do que cartas públicas à nação. O Brasil não deu um cheque em branco a Lula – terá sido, no máximo, um cheque pré-datado e ao portador, caso sua candidata vença no dia 31 de outubro.

Quem diria que uma ex-ministra caída em desgraça no governo do PT se tornaria a maior responsável pelas olheiras fundas e arroxeadas de Dilma no domingo após a eleição?

Começaram, ali, as cenas constrangedoras. Lula não apareceu ao lado de Dilma no discurso da “derrota”. O candidato a vice, Michel Temer, do PMDB, parecia estar num velório – mas já sibilava a cobrança do poder compartilhado. Era um bando de engravatados num cortejo fúnebre. A maquiagem pesada da petista não escondia o abatimento, Dilma mancava com a torção do tornozelo. Achei que ela tinha chorado.

A bateria de críticas à criatura partiu do criador – como se o presidente nada tivesse a ver com o resultado. Dilma tem de descer do salto alto, abandonar o púlpito, ignorar o marketing, misturar-se à multidão, dizer que é contra o aborto, esquecer a plataforma do PT sobre o assunto, mostrar-se mais humilde, religiosa, atrair Marina Silva de volta, abraçar as árvores, os pobres. Tem de respeitar a imprensa. Não é mole não. Os governadores aliados criticaram o destempero recente de Lula. Antes, aplaudiam babando.

Serra redescobriu o esquecido Fernando Henrique e seu legado. Aécio Neves, já triplamente vitorioso em Minas, redescobriu Serra. Itamar Franco, eleito senador na cola de Aécio, redescobriu sua verve: “Seja mais Serra e menos marketing”, disse ao tucano.

O debate sobre o aborto é uma manobra primária. Dilma e Serra têm opiniões parecidas sobre o tema

No terreno minado do PV, os verdes deram entrevistas grupais, bradando ao microfone. Marina precisou enquadrar a fome dos companheiros por cargos. Eles ameaçaram não seguir sua orientação. Mas foi o discurso inteligente e inovador de Marina que mudou o jogo e valorizou a sigla. Uma forma diferente de fazer política, lembram?

“Eu me sinto traído”, disse Lula em 2005, referindo-se aos companheiros aloprados do mensalão. Com o PT, afirmou, tinha desejado “construir um instrumento político que pudesse ser diferente de tudo que estava aí”. Mas traiu a si mesmo. Posou rindo com Collor. Alguém lembra o rosto compungido do vice José Alencar? Lula sustentou Sarney, apoiou Renan Calheiros e engoliu Temer.

O que se faz agora com o aborto é uma das maiores hipocrisias eleitorais da história. Nem Dilma nem Serra jamais defenderam o aborto em si. Ambos têm posição parecida e alinhada com as democracias europeias, entre elas um dos países católicos por excelência, a Itália. PSDB e PT já defenderam a descriminalização do aborto. O PV também. Serra e Dilma gostariam que o Brasil debatesse o aborto à luz da saúde pública, para evitar a prisão ou a morte de mulheres pobres em clínicas clandestinas. Lula cansou de defender o mesmo. Está quietinho.

A coisa é tão complicada que levou Serra a cometer uma gafe: “Nunca disse que sou contra o aborto, porque sou a favor. Ou melhor, eu nunca disse que era a favor do aborto porque sou contra o aborto. Sou contra”.

Há muitos motivos para votar ou não votar em Dilma ou em Serra. E não é a religião que os distingue. É inacreditável que uma manobra tão primária ofenda o Estado laico e o eleitor inteligente. Dilma não é uma feiticeira do século XXI. Mas, com medo, posa de carola, refém de padres e pastores. Nossos candidatos agora são verdes e beatos desde criancinhas. Com isso, traem suas convicções. Provavelmente, veremos Serra e Dilma rezando no próximo debate. Haja fé.

Friday, October 08, 2010

Brasil regride séculos com programa eleitoral sobre Deus, aborto e família

08/10/2010 - 13h59

Brasil regride séculos com programa eleitoral sobre Deus, aborto e família

Mauricio Stycer
Crítico do UOL

Veja o horário eleitoral da tarde desta sexta-feira (8)


De um lado Dilma, de outro Serra. No meio, “a família brasileira”, esta entidade abstrata, a quem os dois candidatos resolveram se dirigir com promessas de “respeito à vida” e a Deus, como se o Brasil vivesse uma era de obscurantismo e perseguição religiosa.

Um atraso de séculos, dramatizado pelo discurso dos dois candidatos e de apelações variadas. No caso de Dilma, o já recorrente reforço do presidente Lula, que disse ter sido vítima de mentiras, como a sua candidata: “Disseram que eu ia fechar as igrejas”. Já Serra, fez desfilar pela tela mulheres grávidas, enfatizando o lema de que é “a favor da vida”, do “dom da vida” e da “mãe brasileira”.

Em sua primeira frase, Dilma disse: “Quero começar este segundo turno agradecendo a Deus por me ter concedido uma dupla graça”. Serra, na imagem que abriu seu programa, apareceu discursando sobre a sua ida ao segundo turno e rogou: “Com Deus, vamos à vitória”.

O programa da petista atribuiu a “uma corrente do mal” na Internet a divulgação de mentiras a seu respeito. “Dilma respeita a vida e as religiões”, disse a narradora, repetindo o presidente Lula e a própria candidata.

Serra, apresentado como “do bem”, mostrou como pretende confrontar a petista: “Não mudo de opinião em véspera de eleição”. E repetiu seu bordão sobre “o direito à vida”. E o narrador, em outro momento, lembrou que “diferente do PT de Dilma”, Serra “sempre condenou o aborto”.

Até ao fazer promessas de cunho objetivo, os candidatos impregnaram o discurso com palavras de apelo religioso e moral. “Para fortalecer a família brasileira, Dilma vai construir mais 2 milhões de moradias e, ao mesmo tempo, melhorar o sistema de saúde”. Serra falou em “devoção às instituições democráticas”.

Um desastre. Num Estado laico e democrático, é assustador ouvir os candidatos à Presidência da República recorrerem a Deus para conseguir votos.

Thursday, October 07, 2010

Aborto ofusca debate sobre mulheres

Aborto ofusca debate sobre mulheres

Temas como falta de creches e ingresso feminino no mercado de trabalho estão fora da pauta eleitoral

Publicada em 06/10/2010 às 23h12m

Alessandra Duarte e Duilo Victor

RIO - Enquanto os presidenciáveis se esforçam para explicar o que pensam sobre o aborto, estão deixando de responder sobre mercado de trabalho para a mulher, equiparação salarial entre homens e mulheres, rede de creches... Para cientistas políticas, pesquisadoras de políticas para a população feminina e artistas, o debate moral em torno do aborto que tem ocorrido na campanha presidencial nos últimos dias tem deixado de lado problemas crônicos vividos pelas mulheres brasileiras.

(PT já puniu deputado contrário ao aborto) (Em 98, Serra era o alvo das críticas dos religiosos)

Questão enfrentada pela mulher de baixa renda que está entre as mais citadas como fora da discussão presidencial é a falta de creches públicas para as mães pobres. A atriz Claudia Jimenez diz assistir a esse problema entre as funcionárias da academia de ginástica da qual é sócia:

Tendo onde pôr o filho, a mulher pode trabalhar, se instruir

- Vejo funcionárias que passam por isso, brinco que vou abrir uma creche para elas. O tema da creche, no começo da campanha, até que foi falado , mas depois se diluiu. E o que mais tem é mulher querendo trabalhar e não tendo com quem deixar o filho, tendo que arranjar vizinha para cuidar da criança. Ou então a mulher precisa sair mais cedo do trabalho, mas aí o empregador manda embora - conta Claudia Jimenez. - Tendo onde pôr o filho, a mulher pode trabalhar, se instruir... Não tem que discutir o aborto, tem que discutir por que tem mulher que engravida sem querer.

- Não se pode falar em igualdade no mercado de trabalho sem uma rede de creches - conclui Gilda Cabral, fundadora do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFemea), que também cita a violência doméstica como tema fora de pauta na campanha. - Assim como programas de assistência a idosos ou doentes que precisam de cuidador; nesses casos a carga sempre fica para a mulher.

Professora de pós-graduação em políticas públicas do Instituto de Economia da UFRJ, Lena Lavinas diz que o investimento em creches e escolas em tempo integral é o que aproximou países europeus, por exemplo, da melhoria econômica e do desenvolvimento:

- Mulheres pobres trabalham menos horas que homens. Se puderem ter os filhos em uma creche o dia todo, vão ter mais chances de melhorar a renda per capita da família. Sob o ponto de vista da erradicação da pobreza, o acesso à creche e à escola em tempo integral é mais eficiente que o Bolsa Família, apesar de esse programa também ser necessário.

Segundo a pesquisadora, apenas 15% das crianças entre 0 e 3 anos no Brasil são contempladas com acesso a creches:

- Esse debate sobre aborto não é objetivo, é ideológico. Acho que a única com proposta sobre relação de gênero é Dilma. Mesmo assim, por conta desse debate, não foi adequadamente apresentada - diz Lena, em alusão à proposta da petista de construir creches.

A escritora Rose Marie Muraro crê que falta à campanha presidencial debater formas de aumentar a renda e a escolaridade das mulheres - que, segundo a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad) 2009, do IBGE, já é a chefe de família em 22 milhões de lares. Desde 1999, esse número cresceu 81%, contra 15% para os homens.

- No Bolsa Família, o dinheiro é dado à mulher, que é considerada a que toma conta da família. Esse modelo deveria ser completado por serviços de agências de microcrédito ou bancos comunitários, por exemplo, para moradoras nos bolsões de pobreza - comenta Rose Marie. - Na população de baixa renda, a da mulher é a mais baixa. Só que, por outro lado, a mãe influencia mais na renda e na escolaridade do filho do que o pai: o filho de uma mulher pobre tem 11 vezes mais chance de continuar na pobreza do que aquele com o pai pobre. Além disso, o filho de uma analfabeta tem chance 23 vezes maior de ser analfabeto do que aquele com pai analfabeto.

A cientista política Fernanda Feitosa, que pesquisa a participação feminina na representação política partidária, afirma que o debate eleitoral em torno das necessidades femininas está incipiente. Não se fala, por exemplo, diz Fernanda, na elaboração de programas que combatam a dupla jornada feminina:

- As políticas para mulher têm sido tratadas no plano moral, não num conceito estadista.

O Brasil ainda não conseguiu separar Estado de religião

Lucinha Araújo, presidente da Sociedade Viva Cazuza, diz que a discussão política sobre propostas para mulheres erra no tom:

- O Brasil ainda não conseguiu separar Estado de religião. Devemos achar o meio termo e discutir se o Estado deve interferir tanto na vida íntima das pessoas, como na questão do aborto. O corpo é da mulher, não uma questão de Estado. Deveríamos pensar mais na assistência, como o direito à creche e à saúde.