Amy Winehouse: decadência no auge
Amy Winehouse: decadência no auge
LUÍS ANTÔNIO GIRON
O Summer Soul Festival na Arena Anhembi em São Paulo no sábado, dia 15, foi a prova dos nove para a cantora e compositora inglesa Amy Winehouse. Ela coroou sua turnê pelo Brasil com um espetáculo de péssima qualidade. A excursão pelo Brasil tinha uma grande importância para a artista. Afinal, ela finalmente superaria com um superespectáculo a série de vexames que deu nos últimos tempos, por onde passou. Mas não: Amy impressionou pela insegurança e pela falta de profissionalismo. Minha impressão é de que ela enterrou a carreira de vez – e que esta foi sua primeira e última turnê pelo Brasil. Quem sabe ela possa se recuperar, é a torcida de seus fãs. As razões para a má qualidade de seu desempenho estão em aspectos extramusicais, que se refletem nos musicais. E como ela está num palco e cobrando bem por isso, precisa passar pelo exame da crítica. Que não tem sido nada benevolente com ela.
Amy proporcionou o pior show da noite. Aliás, se há uma figura para simbolizar a série de shows de sábado, ela é a pirâmide invertida. Ou seja, do maior para o menor, do melhor para o pior. A primeira apresentação, com o jovem cantor e compositor de new soul Meyer Howthorne foi a melhor. Acompanhado de uma banda de rthym’n’blues, ele fez um show interessante, apresentando fórmulas sonoras contemporâneas, misturando diversas vertentes, numa espécie de revival dos anos 80 com pitadas de Jamiroquai. Com seu visual descolado (terno branco e óculos de nerd), Meyer disse a que veio.
A cantora Janelle Monae não mostrou a mesma musicalidade. Sim, a moça é animada e sua trupe fez um desfile de fantasias inspiradas no carnaval de New Orleans. Janelle tem ótima voz, mas é um pouco histérica e nervosa. Aposta no exibicionismo e despreza a profundidade. Talvez seja jovem demais para entender isso. Enfim, ela pulou, rebolou se descabelou, e foi acompanhada pela banda, meio baseada no som de New Orleans, meio punk, meio soul.. Como ninguém conhecia as músicas (eu tinha ouvido o CD, melhor que o show, lamentavelmente), o barulho resultou em nada. Shows não se fazem só com cabelos moderninhos e figurinos excêntricos. Janelle pode melhorar, pois tem uma carreira promissora pela frente.
Amy Winehouse, porém, só tem o passado pela frente. Coroou sua turnê pelo Brasil com um espetáculo aquém, muito aquém da fama da cantora. Ela foi superexposta, fez sucesso demais com seu segundo CD, Back to Black, de 2006, e alimentou o jornalismo de fofocas com seu comportamento escandaloso. Amy encanta por ser fora de moda, ela parece ter saltado de 1966 para os dias atuais, sem ter participado da evolução da música. Sua melhor canção, aliás, “Rehab” é totalmente plasmada na marcha harmônica de um sucesso de 1965: “(I can get no) Satisifaction), de Mick Jagger e Keith Richards. Se você cantar “Rehab” junto com a música dos Rolling Stones vai entender o que digo. É como se Amy puxasse aquele blues revolucionário para trás, para o tempo do doo-wop. Para se ter uma ideia do show lamentável que ela deu no Anhembi, o público só se deu conta de que ela cantava “Rehab” uns quatro compassos depois do começo da música. A interpretação era tão desanimada que “Rehab” soou como uma marcha fúnebre.
Trôpega, Amy vagou pelo palco desorientada, como se não soubesse nem onde estava; interrompeu seus números várias vezes para tomar cerveja em uma caneca; passou a mão pelo nariz e pelos braços, como uma junkie; pior de tudo, seu pecado maior foi ter desafinado, ter cantado mal. Em três músicas ela se deu bem, pois ela possui uma voz bonita, expressiva, embora frágil, pequena. Mas já era tarde demais. Logo engatou a protocolar apresentação dos músicos, que durou mais ou menos 10 minutos. Sentou-se no estrado enquanto falava. Como se diz em ópera, Amy teria cantado olhando para o relógio – se pudesse entender o que o relógio informava. Alguns membros d sexteto que acompanhavam a cantora atuavam como paramédicos. Ajudavam a moça a se erguer e a lembrar do set list – ou, como prefiro dizer, do programa do espetáculo. Uma ótima banda, com boa seção de metais e percussão, mas que se perdeu com o destempero da solista.
Alguns fãs aplaudiam e vibravam a cada gole que ela dava na caneca de bebida, assim como na ópera as pessoas aplaudem os agudos. Os fãs deviam aplaudir as boas performances de Amy. Mas não houve nada para aplaudir senão os tragos da mulher desesperada no palco. Algo tão real e tão bruto que talvez mereça aplausos, pois o show business hoje está tão elaborado e megaproduzido, que parece não haver lugar para uma cantora como essa. Em 1966, talvez. Mas naquele tempo as cantoras mais junkies se entregavam à música de forma profunda, emocionante. Basta lembrar de Janis Joplin e Jim Morrison. Vamos lembrar de Billie Holiday, que, mesmo condenada pela heroína, cantava com um sentimento arrebatador. Amy, não. Ela entregou sua voz à dissipação. Sua voz se apagou diante do histrionismo e do desconcerto. Imagino quem pagou R$ 600,00 para, da plateia vip premium, ver uma cantora se desfazer em palco. Alguns fãs ficaram felizes e aliviados, porque esperavam um vexame maior. Não imagino como ele seria.

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