Diário do webspaço

Thursday, January 20, 2011

Aos ricos, o futebol.

FUTEBOL – Aos ricos, o futebol.

A progressiva e bem planejada expulsão de torcedores pobres dos estádios, num processo de Robin Hood ao contrário é analisada por Marcos Alvito., antropólogo, professor da Universidade Federal Fluminense – UFF, e membro da Associação Nacional dos Torcedores, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 12-12-2010.

Segundo ele, “a rede de TV que monopoliza as transmissões há décadas transformou o futebol em sobremesa da novela, com jogos no meio da semana terminando por volta de meia-noite. Essa mesma rede é dona do pay-per-view, que a cada dia dá mais lucro. Ou seja: ela praticamente obriga os torcedores a se transformarem em telespectadores dos canais pagos”.

Eis o artigo.

Os sinais estão por toda parte. Em 2005 o Maracanã fechou a geral, talvez o setor popular mais famoso do mundo, onde durante meio século floresceu uma cultura torcedora lúdica e carnavalesca. Em seu lugar foram colocadas cadeiras de plástico com preço seis vezes maior. O Maracanã, antes “o maior de todos”, vai virar um estádio para 76 mil pessoas. Esse encolhimento – que ocorrerá também nas dimensões do gramado – custará aos cidadãos “apenas” R$ 1,2 bilhão. Com a reabertura do estádio, calcula-se que os ingressos custarão pelo menos o dobro do que custam atualmente.

Recentemente realizou-se no Rio a Soccerex, feira internacional centrada no futebol-negócio. Nela, “especialistas” afirmaram que doravante o futebol brasileiro terá a classe A como clientela alvo, deixando de lado as classes B e C. Porque as D e E há muito não sentam em uma arquibancada. É claro que o evento foi financiado com dinheiro público. Em Santa Catarina, o Avaí aumentou em 50% o preço dos ingressos neste ano, passando de R$ 40 para R$ 60. No Paraná, o recém-promovido Coritiba já anunciou que aqueles que não aderirem a seu plano de sócio torcedor terão que desembolsar R$ 100 pelo ingresso avulso. Não é de se admirar que a média de público do campeonato brasileiro em 2010 tenha sido ridiculamente baixa: 14.839 pagantes. Isso é menos que a média do campeonato alemão da segunda divisão!

Não é o preço do ingresso o único fator para o afastamento do público. Hoje os estádios viraram estúdios para um show televisivo chamado futebol. No estádio-estúdio do Engenhão, que custou aos cofres públicos três vezes mais do que previa o orçamento, placas de publicidade impedem a visão de boa parte da linha de fundo, inclusive da linha do gol. Ingressos para esse setor “pagando pra não ver” custam, em jogo normal, R$ 30. A tabela do campeonato é alterada de uma semana para outra, modificando dias e horários sem respeito pelo torcedor. A rede de TV que monopoliza as transmissões há décadas transformou o futebol em sobremesa da novela, com jogos no meio da semana terminando por volta de meia-noite. Essa mesma rede é dona do pay-per-view, que a cada dia dá mais lucro. Ou seja: ela praticamente obriga os torcedores a se transformarem em telespectadores dos canais pagos.

Esse processo de expulsão dos torcedores mais pobres (ou menos ricos) é algo planejado e consciente. Ainda em 2004, o então presidente do Atlético Paranaense já afirmava que “o clube não precisa mais de torcedores, e sim de apreciadores do espetáculo”. Dentro dessa filosofia, proibiu a entrada de torcedores com bandeiras, tambores, faixas e camisas de torcidas organizadas. Por baixo de uma “nuvem midiática” vendendo a ideia de que estaria ocorrendo uma modernização do futebol brasileiro, o dinheiro do cidadão pobre financia, via impostos, sua própria expulsão. É um processo de Robin Hood ao contrário…

Chamar o futebol brasileiro contemporâneo de moderno, aliás, é piada de mau gosto. Por um lado temos uma estrutura política feudal mantida há décadas nos clubes, nas federações estaduais e na CBF. Por outro, o capitalismo selvagem na hora de extorquir os torcedores. A junção do atraso com a falsa modernidade é desastrosa.

Existe algo mais arcaico e tradicional que a venda de ingressos? Como vão sempre parar na mão dos cambistas? Será que as rendas reais são mesmo aquelas? Será que as gratuidades são mesmo aquelas? É um sistema obscuro que beneficia sempre os mesmos: empresas que fabricam os ingressos (e fazem adiantamentos aos clubes, presos a elas do mesmo modo que à televisão) e, mais uma vez, cartolas corruptos.

Por falar em polícia, qual é o principal instrumento de policiamento dos estádios? Investigação? Inteligência? Aparelhos sofisticados de filmagem? Acertou quem respondeu o cassetete, usado desde o Paleolítico. Em vez de prender e processar a minoria ínfima de torcedores que vai ao jogo para brigar, a polícia prefere bater. Desde quando o bom e velho porrete é sinônimo de modernidade?

A parte menos moderna, todavia, é o sistema de formação de jogadores. Milhões de jovens brasileiros sonham ser jogador de futebol. Poucos vão se tornar profissionais e, entre estes, pouquíssimos vão ganhar os altos salários que povoam o imaginário das classes populares. A formação de um jogador profissional demora em torno de 5 mil horas de treinamento em dez anos. Os clubes exploram essa mão de obra infantil sem nenhuma responsabilidade. Se o garoto de 11 ou 12 anos se machucar ou se não “servir” mais, o que ocorre? É simplesmente abandonado. Para onde vai? O Estado zela por ele? Regulação por parte do Estado, proteção aos jovens, preparação para a vida futura com ensino profissionalizante, nada disso ocorre.

Debaixo da bruma marqueteira que exalta a pseudomodernização assistimos a um processo de elitização perversa do futebol brasileiro. Perversa porque financiada com dinheiro do povo. Uma arte e cultura popular criada e mantida por gerações de brasileiros é saqueada em benefício de poucos. É o primeiro mandamento do futebol-mercadoria: dai aos ricos o futebol.

O esporte que vendeu a sua alma


Como o rude desporto bretão se tornou um ramo privilegiado da indústria do entretenimento

por Marcos Alvito


"Não quer que o chutem também, vagabundo jogador de futebol?" É com essas palavras, seguidas de um pontapé, que o leal conde de Kent agride um mordomo que ousara desrespeitar o rei. É uma cena da tragédia Rei Lear, escrita há 400 anos por Shakespeare. Naquele tempo, o futebol era considerado um jogo da ralé, e ser chamado de jogador era um xingamento. Não era para menos, porque consistia em um enfrentamento generalizado entre duas aldeias, muitas vezes com vítimas fatais. A turma tentava carregar uma esfera de couro - geralmente a bexiga de um animal - até a aldeia adversária. Lá chegando, a comemoração era quebrar tudo. Não havia nenhuma regra, e a balbúrdia era tanta que reis e autoridades tentaram proibir o jogo durante séculos.

Em Islington, ao norte de Londres, fica o estádio do Arsenal. O clube foi fundado por operários de uma fábrica de munições e até hoje o bairro onde fica o Emirates Stadium é relativamente pobre. Para chegar ao estádio, seguindo as placas colocadas desde a estação de metrô, passa-se por um restaurante boliviano, lojas por alugar, um pub que ostenta várias bandeiras do clube e um escritório onde imigrantes africanos podem enviar dinheiro para seus parentes. Contrastando com a vizinhança, o Arsenal é um dos clubes mais ricos do mundo e o canhão, símbolo que remete às suas origens, agora jaz numa parede revestida de mármore.

O Emirates Stadium, um colosso de concreto que mais parece um aeroporto ou um shopping center, custou 400 milhões de libras (1,6 bilhão de reais). Embora comporte mais de 60 mil torcedores, comprar ingresso para um jogo do Arsenal é missão quase impossível. Ingresso garantido, só para os que têm um cartão permanente (o season ticket) que dá direito a assistir a todos os jogos. Custa a bagatela de 990 libras (cerca de 4 mil reais), mas a lista de espera pode demorar até quinze anos. Para ficar na lista, é preciso pagar 45 libras (180 reais). Descendo um degrau na hierarquia pecuniária dos torcedores (ou consumidores?), há os sócios-torcedores. Pagando cerca de 30 libras (120 reais) por ano, eles podem comprar ingressos para todos os jogos - mas só depois de descontados os reservados aos que têm o cartão permanente. Nesse caso, os ingressos custam 40 libras (160 reais), no mínimo. E existe, finalmente, a categoria dos reles mortais, que poderão comprar ingressos só se sobrar algum. Os quatro grandes times (Arsenal, Chelsea, Liverpool e Manchester United) praticamente não vendem ingressos assim, pois os donos do cartão permanente e os sócios-torcedores fazem valer seus privilégios. Para os outros times, ainda é possível comprar um ingresso ou outro para jogos menos importantes.

Depois de dias de tentativas, consegui finalmente comprar um ingresso para o jogo do Fulham contra o Bolton Wanderers, talvez por acontecer numa quarta-feira à noite: pontapé inicial às 19h45. E sem dúvida porque a partida equivalia a um Náutico x América-RN. Paguei a módica quantia de 32 libras (128 reais) para sentar em um buraco na primeira fila, um ótimo lugar para ver a marca das chuteiras dos jogadores. Com o mar de chuva e o frio - o verão inglês ainda não foi informado do aquecimento global -, eu teria direito a ficar encharcado e batendo queixo por noventa minutos. Depois de uns quinze minutos, fui para um assento na parte coberta, bem sequinho. Pena que era em frente a uma das colunas de sustentação da arquibancada.

Os clubes da primeira divisão não teriam necessidade, aparentemente, de cobrar tão caro pelos ingressos. Somente com direitos de transmissão das próximas três temporadas, os vinte clubes da divisão de futebol mais rica do planeta ganharão 2,7 bilhões de libras (cerca de 11 bilhões de reais). A isso se soma a venda de inúmeros produtos. Se não se consegue comprar ingresso para um jogo do Arsenal, é possível freqüentar uma das duas gigantescas lojas do clube. Na ausência de dribles, passes milimétricos e cabeçadas certeiras, há quem se contente com uma caneca vermelha, bolas de golfe com o símbolo do canhão, meias, chaveiros, almofadas, pijamas, canetas, balas, cadernos, chocolates, relógios e até camisas do Arsenal com o nome do torcedor gravado, a quase 200 reais cada uma.

Além das quinquilharias, o fiel torcedor poderá gastar o seu dinheiro com o Arsenal de diversas maneiras: fazendo a assinatura da tevê a cabo para ver os jogos, pagando para receber mensagens no seu celular com as últimas notícias do clube, comprando um passe eletrônico para ver os gols pela internet, adquirindo o DVD da última temporada ou as dezenas de enciclopédias, biografias e autobiografias que são publicadas todos os anos. Caso não seja suficiente, pode-se apostar em dezenas de lojas diferentes, e pela internet também. Apostar em tudo: se o Arsenal será campeão, se vai ser rebaixado, se irá se classificar para as copas européias, quanto vai ser o placar do jogo, quem vai marcar o primeiro gol, em que minuto da partida... Sem falar no pão-nosso-de-cada-dia: as páginas esportivas dos jornais, as revistas especializadas e, é claro, a cervejada no pub com os amigos, vendo e comentando os jogos da rodada.

Como o jogo da ralé virou uma máquina de fazer dinheiro? O processo se confunde com a transformação de um jogo rural violento e selvagem num esporte praticado nas escolas mais aristocráticas da Inglaterra. Os professores tinham enorme dificuldade em conter pupilos originários de uma camada social superior. Os filhos da aristocracia desrespeitavam e, às vezes, agrediam seus mestres. Eram o terror da região em torno das escolas: estupravam camponesas, destruíam pubs, batiam nos aldeões. Entre eles mesmos havia violência. Os calouros eram tratados pelos veteranos como servos, inclusive no abuso sexual. Os diretores tiveram a idéia de canalizar a energia destruidora para uma atividade física.

Foi assim que, usando o pátio do colégio como campo, aos poucos o futebol virou um esporte, embora de início as regras fossem transmitidas oralmente e variassem de escola para escola. Como jogar era privilégio dos veteranos, durante muito tempo os calouros serviram apenas para marcar a linha lateral. A idéia funcionou e, com o tempo, os diretores conseguiram diminuir as arruaças nas escolas. Eram apoiados pela Igreja, que professava a doutrina do "Corpo são em mente sã". Cansar os meninos era uma maneira de evitar os pecados. Os alunos cresciam e iam para as melhores universidades, aonde chegavam com vontade de bater bola. Havia um problema: os alunos vinham de escolas diferentes e não existia uma regra comum. Algumas escolas permitiam carregar a bola com as mãos e chutar livremente a canela dos adversários. Era a regra da escola do Rugby Football, de onde derivou o rúgbi. Antes das partidas, os times tinham que combinar com quais regras jogariam. Até que uma reunião interclubes na Freemasons' Tavern, em 1863, adotou a regra que proibia o uso das mãos (exceto para o goleiro) e os pontapés (a não ser na bola).

As federações e campeonatos foram criados com impressionante rapidez. O motivo: a ralé, que inventara o jogo e o havia praticado durante séculos, apesar das proibições, aderiu logo ao novo esporte. Ele passou a ser jogado, nas cidades, pelos operários que fizeram a revolução industrial, ganhando salários miseráveis e morando em cortiços insalubres. Quando eles se organizaram em sindicatos e conseguiram arrancar dos patrões a meia jornada de trabalho aos sábados, aproveitaram o tempo livre para jogar futebol. Por isso, até hoje, o horário tradicional do futebol na Inglaterra - cada vez mais desrespeitado pela televisão - é sábado, às três da tarde, a hora em que o pessoal largava o macacão e calçava as chuteiras.

Jogado ou assistido, o novo esporte logo se tornou o principal divertimento dos moradores das cidades (junto com o álcool). Inclusive as mulheres jogavam, até 1902, quando a Football Association proibiu os clubes de manterem equipes femininas. Todo mundo lucrava: o industrial via seus operários criarem mais um vínculo com a fábrica, o dono do pub vendia mais cerveja, os jornais vendiam como nunca; surgiram empresas de material esportivo, prometendo a bola mais redonda e a chuteira mais possante. Depois dos times de fábrica, vieram times de paróquias, times dos freqüentadores de pubs, times de profissionais liberais e aristocratas. À medida que a Inglaterra expandia seu império, o futebol ganhava novos adeptos nas colônias, até se tornar o esporte mais popular do planeta.

Enquanto se alastrava pelo mundo, na pátria-mãe do esporte, contudo, o público diminuiu ano a ano, entre 1950 e 1986. A única exceção foi em 1966, quando a Inglaterra ganhou, em casa, sua única Copa do Mundo (graças a uma bola que não entrou). Entre 1985 e 1986, o público inglês do futebol alcançou o número mais baixo da história: 16,5 milhões de espectadores, contra 41 milhões em 1949. Embora a partir de 1986 tenha havido uma recuperação, a grande virada ocorreu com a criação da primeira divisão, a Premiership, em 1992.

A nova primeira divisão do futebol foi financiada por um espetacular contrato de exclusividade, firmado com a BSkyB, tevê a cabo do bilionário australiano Rupert Murdoch, que queria usar o futebol como ponta-de-lança para a implantação da televisão por assinatura na Inglaterra. Os ingressos aumentaram enormemente de preço: cerca de 300% nos sete anos iniciais da primeira divisão. A majoração não visou somente a melhorar os balanços financeiros dos clubes. Um dos seus objetivos era substituir os torcedores de origem operária por consumidores de classe média, excluindo os indesejados por meio de preços proibitivos. Era a transformação do futebol num ramo privilegiado da lucrativa indústria do entretenimento.

Em nome da segurança, desencadeou-se um processo de higienização dos estádios de futebol, agora transformados em shopping centers ou, nas palavras dos sociólogos Tim Crabbe e Adam Brown, "'palácios do prazer' onde o espetáculo é 'produzido' para uma variedade de 'consumidores'". Os estádios de futebol, antes considerados territórios sagrados dos clubes e de seus torcedores, muitas vezes são vendidos para construtoras, erigindo-se "arenas multiuso" em lugares distantes do bairro onde tudo começara, privando a vida comunitária de um dos seus centros mais importantes. Os novos estádios, exatamente como no modelo americano, tomam o nome das empresas que os financiaram ou, como se costuma dizer, dos patrocinadores do clube: Reebok Stadium (Bolton Wanderers), Ricoh Arena (Coventry City), Emirates Stadium (Arsenal), Kingston Communications Stadium (Hull City), Walkers Stadium (Leicester City) etc. Os campeonatos, devido à inevitável veiculação de notícias na mídia, agora também vendem seus nomes: a primeira divisão é Barclays Premier League e a segunda é chamada (com todos os cacoetes do marketing) de Coca-Cola Championship.

Dinheiro não tem alma e tampouco nacionalidade. Nove dos vinte clubes da primeira divisão têm proprietários estrangeiros. Inglês ou não, quase nenhum deles é verdadeiramente ligado ao futebol. São pessoas como um ex-cabeleireiro que fez fortuna como dono de cassinos (Birmingham City), um empresário islandês (West Ham), os herdeiros de um barão da indústria do aço (Blackburn Rovers), o dono da cadeia de restaurantes Planet Hollywood (Everton), um ex-primeiro-ministro da Tailândia investigado por corrupção (Manchester City), um milionário da indústria da carne e um peso pesado do mercado financeiro (Liverpool), um mal-afamado bilionário russo da indústria do petróleo (Chelsea) e o dono do Cleveland Browns, um time de futebol americano (Aston Villa).

Quem está prestes a ingressar nesse seleto, mas pouco respeitável clube, é o oligarca da indústria dos metais Alisher Usmanov, amigo de Vladimir Putin e conhecido como "O homem duro da Rússia". Um título e tanto, em se considerando o estilo de negócio que hoje lá impera. Ele está prestes a comprar o Arsenal, o último dos quatro grandes ainda em mãos inglesas. O curioso é que os bilionários nem se importam em tomar prejuízo. Numa única temporada (2005-2006), o todo-poderoso Roman Abramovich, dono do Chelsea, perdeu 80 milhões de libras (320 milhões de reais).

Como também é da tradição inglesa, criaram-se associações de torcedores de resistência à mercantilização absoluta do futebol. A "tomada" do Manchester United pelo milionário americano Malcolm Glazer é um exemplo. Os torcedores invadiram as lojas dos patrocinadores cantando e atrapalhando os negócios. Iniciaram boicotes contra essas mesmas empresas e até contra o clube, ameaçando não renovar seus season tickets. Acontece que o "Man U", como é conhecido o time, tem dezenas de milhões de torcedores na China, no Japão, na Coréia. Ou seja, não é mais um clube, é uma multinacional do entretenimento esportivo. Vencidos, mas não derrotados, os torcedores ingleses do Manchester viraram as costas para o clube e prometeram nunca mais voltar - e nem assistir aos seus jogos pela televisão. Em 2005, criaram um novo clube, o FC United of Manchester, e começaram tudo de novo, a partir da décima divisão. "Os Rebeldes", como se intitulam, foram campeões logo no primeiro ano e no segundo ano subiram novamente, agora para a oitava divisão. Inspiraram-se no exemplo dos torcedores que criaram o AFC Wimbledon, em 2002, insatisfeitos com aquilo que um torcedor chamou de "o roubo do nosso clube": a transferência do estádio para uma localidade distante a mais de 100 quilômetros.

Os exemplos pululam. Inconformados com a venda do estádio do clube para uma companhia imobiliária, torcedores do Brentford formaram um partido, que lançou catorze candidatos (um deles foi eleito) em um pleito regional. A resposta mais original, e literalmente na mesma moeda, veio do grupo que criou o site MyFootballClub. A idéia é tão simples quanto genial. Por 35 libras (140 reais), menos do que um ingresso para um jogo da primeira divisão, você se torna dono e técnico de um time de futebol. Promoção "Paga um, leva dois": torna-se dono porque o clube será dirigido a partir do voto unitário dos milhares de proprietários; e técnico porque terá direito a escolher a escalação da equipe, sem ter de ficar eternamente reclamando do time com quatro volantes de contenção. "Parece brincadeira, mas não é. Cerca de 20 mil pessoas aderiram e, com as 700 mil libras arrecadadas, em novembro passado o site anunciou que havia fechado um acordo para comprar pelo menos 51% das ações do Ebbsfleet United, um time da quinta divisão."

Há também aqueles que continuam a torcer pelo seu clube e a freqüentar os estádios; estes têm nos fanzines uma forma de expressar seu descontentamento. Tais fanzines são publicações dos torcedores que começaram a ser divulgadas na segunda metade dos anos 80, inspiradas em fanzines musicais que existiam desde meados da década de 70, ligados, sobretudo, aos punks. Eram, em parte, uma reação à histeria da imprensa e das autoridades em relação ao hooliganismo, e àqueles que tendiam a ver em todo torcedor um criminoso em potencial.

Os fanzines foram importantes para agrupar os torcedores em defesa dos seus interesses, pois levaram à criação de associações. Serviram para lutar contra o aumento do preço de ingressos, contra a venda do estádio do clube e também como plataforma para enfrentar problemas mais amplos, como o plano governamental (da época de Margaret Thatcher) de implantar um cartão obrigatório para identificar o torcedor que quisesse freqüentar o estádio. Entre 1988 e 1990, o número de fanzines saltou de vinte para mais de 200, graças à facilidade de edição proporcionada pelos computadores. Com o desenvolvimento da internet, os fóruns de torcedores hoje são os sites e listas de discussão, mas alguns fanzines ainda persistem.

Somente no jogo entre Birmingham e West Ham, pude comprar dois deles: The Zulu e Made in Brum. O primeiro é o mais radical e engraçado. A relação de amor e ódio mantida com o clube é bem resumida na capa, onde se lê: "Birmingham City Football Club: destruindo esperanças e sonhos desde 1875". The Zulu custa metade do valor de um programa oficial feito pelo clube, e é muito diferente. Os valores da publicação são explicitados em cinco princípios, ilustrados por um camisa nove urinando em cima da camisa nove do adversário daquela tarde, o West Ham:
Como um apaixonado e leal torcedor dos Blues, tenho direito a:
1. Tomar uma cerveja ou duas antes do jogo e chegar ao estádio quando eu quiser.
2. Torcer da forma mais radical, gozando e gesticulando para os adversários, intimidando-os o máximo possível.
3. Usar a língua inglesa do jeito que eu quiser.
4. Recusar-me a aceitar as instruções idiotas dos funcionários do estádio.
5. Reagir à vitória, ou à derrota, da porra do jeito que eu quiser, e sair do estádio da forma que corresponda ao resultado.
Nós somos famosos por verbalizar nossa torcida e nossa paixão, por mais que isso ofenda aqueles que desejam uma primeira divisão pacífica, quieta e silenciosa como uma biblioteca.
E ainda acrescentam, em letras colossais:
NÃO DEIXEM OS PUNHETEIROS QUE ROUBARAM O NOSSO JOGO ROUBAREM TAMBÉM A NOSSA PAIXÃO.

Os fanzines, hoje em dia, muito mais do que divertirem, proporcionam um espaço para manifestações contra a hipercomercialização do futebol. Os aficcionados desesperados torcem por um time que jamais ganhou uma competição nacional, mas continuam fiéis a um clube de mais de 130 anos. Fiéis, mas por quanto tempo? Um deles confessa em Made in Brum: "Eu sempre vou amar o Birmingham City Football Club e esse amor nunca vai morrer, eu sei disso. Mas o que acontece em certos períodos da história do nosso clube faz você pensar se realmente vale a pena o tempo, o esforço e a montanha de dinheiro que você gasta para vê-los chutar a bola mais uma vez."

Essa paixão, expressa de uma forma mais organizada e politizada do que no Brasil, faz da Inglaterra o verdadeiro país do futebol. Não somente por ter sido onde ele nasceu e se transformou em esporte, mas porque as raízes históricas fazem com que a cultura do futebol seja mais profunda, e esteja fortemente ligada à construção de identidades locais, regionais, de classe e até religiosas. É possível, todavia, que a excessiva comercialização esteja colocando em risco a continuidade da tradição. Uma pesquisa realizada pela própria primeira divisão, no ano passado, revelou que a idade média do público dos seus jogos é de 43 anos. Hoje, menos de um em cada dez tem menos de 24 anos. Os torcedores jovens assistem aos jogos nos pubs ou vêem os melhores momentos pela internet.
O envelhecimento dos torcedores foi, de certa forma, uma política consciente dos novos donos do futebol. Os freqüentadores mais velhos têm maior poder de consumo e causam menos problemas do que os bandos de jovens que formavam os hooligans. Estes não deixaram de existir, apenas passaram a freqüentar os jogos das divisões inferiores, nas quais a vigilância é menor e ainda é possível arranjar uma briga. E cujos ingressos têm preços menos proibitivos. Tive uma prova disso quando fui assistir a Nottingham Forest versus Leeds na terra de Robin Hood.

Parecia apenas um jogo da terceira divisão entre duas ex-potências, mas foi muito mais. A surpresa começou no caminho para Nottingham. Quando o trem parou em Derby, vi uma grande confusão na plataforma, envolvendo dezenas de policiais e uma pequena multidão. Assim que a porta do vagão se abriu, entrou um grupo de uns vinte torcedores do Leeds. Quando percebi, eles me rodeavam. Todos levavam uma lata (grande) de cerveja na mão e cantavam, alegremente: "Nós vamos ganhar o campeonato". Os que estavam sentados perto de mim correspondiam ao protótipo do hooligan: cabeças raspadas, tatuagens, pescoços largos, poucos dentes da frente. E eu estava de camisa vermelha da seleção inglesa, a cor da camisa do adversário deles, o Forest. Como dizem que a melhor defesa é o ataque, saí puxando conversa. Disse logo que eu era brasileiro, torcedor do Flamengo, e puxei da carteira uma figurinha do Zico para comprovar. Foi o que bastou para ser adotado pela turma.
Nossa recepção na estação de Nottingham foi tensa. Havia policiais por todo lado, dois deles filmando a nossa chegada. Ao sairmos à rua, ninguém do grupo sabia o caminho direito e a toda a hora falavam ao celular com alguém, tentando descobrir a melhor rota. Para eles, a questão era chegar sãos e salvos a um pub neutro, onde pudessem beber mais cerveja antes do apito inicial. Fizemos uma rota em ziguezague, por ruas menos movimentadas, com o pessoal olhando para os dois lados e para trás também, aparentemente com medo de uma emboscada. Fiz amizade com os mais velhos da turma, uns cinco trintões que não trajavam nada que pudesse identificá-los como torcedores do Leeds. É uma das precauções básicas dos hooligans. O grupo destacou-se do restante e eu colei neles. Fomos guiados pelo celular até a área do Notts County, um clube local que é rival do Forest. Um dos meus novos amigos, um baixinho atarracado e forte, explicou o problema quando passávamos por alguns torcedores do Forest. "Enquanto forem um grupo pequeno nós podemos lidar com eles, o problema é se encontrarmos um grupo maior, uns trinta." Naquele momento, contando comigo, um vegetariano pacifista, éramos seis...

O amigo baixinho disse que o futebol hoje é all about money, money. Não há mais jogadores fiéis ao clube. "Só nós, torcedores, somos fiéis." Depois de alguns litros de cerveja, bebidos em poucos minutos, partimos para o estádio, meia hora antes de o jogo começar. Novamente fizemos um caminho sinuoso, passando por policiais montados a cavalo, outros segurando cães. Os policiais estavam com cassetetes, o que não é comum na Inglaterra. Tudo indicava que aquele jogo não seria dos mais tranqüilos. E não foi. Depois de o Leeds derrotar o time da casa por 2 a 1, na saída do estádio, jovens torcedores do time vitorioso tentaram invadir a estação de trem.

Os ingressos a 50 libras (200 reais) e os esquemas de fidelidade da primeira divisão impossibilitam a presença desse tipo de torcedor. Há quem ache tudo isso muito natural, apenas mais um exemplo do império das leis de mercado. Mas as conseqüên-cias danosas estão visíveis por toda a parte. Clubes tradicionais endividam-se irremediavelmente, tentando, em vão, contratar jogadores que lhes permitam competir com as equipes turbinadas pelo farto (embora de origem duvidosa) dinheiro de generosos oligarcas. Alguns fecham as portas, outros vendem seus estádios e muitos definham dia a dia. O apoio dos torcedores, o coração de qualquer clube, começa a faltar. Antes eles eram ligados ao clube local ou do bairro, já os novos adeptos querem torcer por um time vencedor, que compra craques no mercado mundial e aparece na televisão. É cada vez mais fácil ver crianças com as cores do Liverpool, do Arsenal e, principalmente, do Manchester United. A montanha de recursos proveniente da televisão fica totalmente concentrada na primeira divisão, que, aliás, foi criada para isto mesmo: para não ter que dividir a grana com as outras divisões, ou seja, com os clubes mais pobres. Na verdade, o abismo entre os clubes acentua-se no interior da própria primeira divisão. Nos últimos quinze anos, apenas quatro clubes conseguiram ser campeões. O futebol começa a ficar sem graça.

Os novos donos do futebol inglês parecem ter adotado o modelo americano: o esporte como show business. Nos Estados Unidos o esporte profissional movimenta duas vezes mais dinheiro do que a indústria automobilística, e sete vezes mais do que Hollywood. Dentro dos novos estádios-shopping, muitas vezes o grito ou o canto dos torcedores é abafado pela música dos alto-falantes, no melhor estilo NBA. Os locutores procuram orquestrar e controlar as emoções dos torcedores. Estes são obrigados a torcer sentados, permanentemente vigiados pelos circuitos internos de televisão e por uma multidão de zelosos funcionários. Durante um jogo do Birmingham City contra o West Ham, um desses funcionários proibiu-me de tirar fotos com minha humilde e despretensiosa câmera fotográfica. A explicação: o espetáculo é propriedade do clube. E dele agora fazem parte os mascotes infantilóides, como bichos de pelúcia gigantes: leõezinhos, elefantinhos, cachorrinhos. À venda na loja do clube, é claro.

Num ponto crucial, contudo, o modelo original é superior. Embora visando unicamente ao lucro, os empresários do esporte americano sabem que o valor da sua mercadoria depende de algo chamado competição. O esporte é um negócio com certas especificidades. O historiador holandês Johan Huizinga lembrava, em seu Homo Ludens, que o feitiço despertado pelo jogo depende em grande parte da tensão proveniente da incerteza e do acaso. Exatamente para preservar o valor comercial do seu produto, os dirigentes do futebol americano buscaram garantir esse elemento essencial, tomando medidas concretas para evitar um desequilíbrio de poder financeiro entre as franquias. Diminuindo a incerteza, desaparece a magia do jogo. Por isso, desde o momento em que ligaram seu destino à televisão, eles estabeleceram que os recursos fossem igualmente divididos entre as equipes. Na década de 90, ainda com a mesma preocupação, fixaram um teto salarial, resolvendo, de uma só tacada, dois problemas: a escalada astronômica da remuneração e o possível desequilíbrio entre as equipes.

No caso do futebol de bola redonda, a entrada selvagem do capital tem desfigurado o jogo. Surgiu uma elite mundial de clubes globalizados e plenamente transformados em empresas, como o Milan, o Manchester United, o Real Madrid. A concentração de recursos permite monopolizar os melhores jogadores, provenientes dos quatro cantos do planeta. Campeonatos nacionais, antes equilibrados, agora têm um ou dois favoritos. Muitos clubes nem mais competem com esperança de conseguirem o título - cada vez mais improvável -, mas apenas com a pretensão de se classificarem para uma das várias competições européias, bastante lucrativas. Não é mais tudo pela vitória. Agora, é tudo pelo equilíbrio contábil.

Por falar em finanças, as minhas estavam abaladas pelas despesas com a compra de ingressos. Passei a apelar para os jogos da segunda divisão, mas o preço das entradas - por volta de 30 libras (120 reais) - continua-va a destroçar meu orçamento. Foi assim que acabei indo ver o clássico Leamington versus Sutton Coldfield, jogo da British Gas Business Football League Midlands Division. Traduzindo: a oitava divisão. Dentre os 4 mil clubes de futebol da Inglaterra, talvez não haja um grito
de guerra mais original do que o do Leamington: "Vamos lá... Freios!" Freios? É porque o Leamington tem sua trajetória ligada à história da indústria automobilística na região de Warwickshire, no centro da Inglaterra. Embora tenha sido fundado em 1891, antes de o futebol chegar ao Brasil, o Leamington só se tornou um clube de maior expressão em 1946, ao ser encampado pela Lockheed, a maior empregadora da cidade e fabricante de sistemas hidráulicos... de freios. O declínio da indústria automobilística levou o clube a vender seu estádio e a fechar as portas em 1988. Um fanático grupo de torcedores, entretanto, manteve acesa a chama do clube e, em 2000, refundou o Leamington. O clube subiu várias divisões em poucos anos e já voltou ao lugar onde estava antes de ser extinto: a oitava divisão.

Nela, a realidade é completamente diferente da bilionária primeira divisão. Seus jogadores, semiprofissionais, trabalham na construção civil, são faxineiros, funcionários de escritório etc. Alguns são estudantes universitários. Eles treinam à noite, por duas horas, nas terças e quintas-feiras. Recebem apenas uma ajuda de custo, girando em torno de 100 libras (400 reais) por semana. Marcus
Jackson, o atlético e ofensivo lateral direito dos "Brakes" - apelido do Leamington; freios, em inglês -, resumiu assim seus objetivos: "Aproveitar meu futebol e me divertir no fim de semana". Aos 28 anos, ele não tem grandes esperanças, mas se sente feliz em poder jogar, depois de ter fraturado o fêmur, o que levou os médicos a decretarem o fim da sua carreira. Ele acha que os Brakes têm uma chance de vencer o campeonato deste ano. Pedreiro autônomo, ele tem que parar de trabalhar mais cedo quando os Brakes jogam no meio da semana.

Marcus Jackson e seus companheiros são treinados por Jason Cadden, 38 anos, um ex-ponta-esquerda que teve sua carreira interrompida por causa de uma contusão no joelho. Ele começou a dirigir clubes comunitários e há sete anos é técnico dos Brakes. Não é seu único emprego: ele também trabalha como técnico em várias escolas para complementar sua renda. Diz que ganha o suficiente para "pagar as contas". Os jogadores são descobertos por ele ou por olheiros do clube, torcedores que enviam dicas. Acha que o futebol profissional de hoje está um pouco fora da realidade, com salários estratosféricos e a circulação de um volume absurdo de dinheiro.

O presidente do clube, David Hucker, é um compenetrado senhor de 58 anos que trabalha como consultor da prefeitura. Voluntário, não recebe um centavo do clube. Além de buscar o contato com os torcedores do Leamington, Hucker divulga o clube no rádio e nos jornais. Ele mesmo escreve uma coluna comentando os jogos do time, publicada em mais de um jornal local e no site do clube. Parece estar dando certo, pois, naquela tarde de sábado em que o Leamington enfrentou o Sutton Coldfield, o novo estádio abrigou um público recorde para aquela divisão: 648 pagantes! Hucker estava contentíssimo.

A bilheteria, com o ingresso a 6 libras (24 reais, bem barato para a Inglaterra), representa apenas 10% dos recursos do clube. Além do patrocinador - uma empresa de materiais de construção, que gera 25% da renda -, a principal fonte de arrecadação é o bar. Há outras fontes menores, como os anúncios em torno do campo ou no programa do jogo. Sim, um clube da oitava divisão faz um programa para cada jogo, amistoso ou oficial. Com orgulho, Hucker revela que o clube não deve uma libra a ninguém: "Somos donos do estádio, construímos tudo pouco a pouco, temos feito lucro ano após ano. É a única maneira".

A administração impecável e o profissionalismo são o que mais impressionam um brasileiro acostumado ao caos administrativo do futebol pentacampeão do mundo. Cheguei a Leamington de trem e tive apenas que atravessar a rua para pegar a van gratuita, contratada pelo clube para levar os torcedores até o estádio. Depois de dez minutos de viagem, chegamos ao campo, construído no meio do nada. Paguei meu ingresso e fui dar uma olhadinha no estádio. Bem, estádio é uma maneira de falar. Por enquanto, o que há é um gramado muito bem cuidado e cerca de 300 lugares sentados. Há uma pequena casinha de madeira onde são vendidas camisas, chaveiros e os tradicionais cachecóis do clube. Mas nada de bolas de golfe. Nem sinal de mascotes ou lojas de apostas. Do lado de fora, fica um quadro com as escalações dos dois times escritas com uma caneta Pilot.

Começa a partida: o Leamington no seu tradicional uniforme, camisa amarela, calções pretos e meias pretas, versus o Sutton Coldfield, todo de azul. Os Brakes começam no ataque: Ben Mackey, um rechonchudo atacante, abre o placar com um forte chute após um minuto de jogo. Aos dezenove minutos, os visitantes têm um pênalti a seu favor, mas Richard "Mozza" Morris, o bravo goleiro dos Brakes, salva a tarde. Os azuis pressionam bastante durante todo o jogo, mas o Leamington faz aquilo que se espera de um time com o apelido de "freios" e segura o resultado até os 41 minutos do segundo tempo. Depois de uma bela jogada de Richard Adams, James Husband dispara um petardo com a canhota e sela o resultado de 2 a 0 para os Brakes. Ninguém segura os freios... A maior parte do público assiste ao jogo de pé, ao lado do campo, de onde dá para ouvir os jogadores reclamando do juiz, o técnico passando instruções e até as provocações entre os jogadores. Muito simpático. Aqui, o futebol parece ainda ter alma.

Mané e o Sonho



Mané e o Sonho



A necessidade brasileira de esquecer os problemas agudos do país, difíceis de encarar, ou pelo menos de suavizá-los com uma cota de despreocupação e alegria, fez com que o futebol se tornasse a felicidade do povo. Pobres e ricos param de pensar para se encantar com ele. E os grandes jogadores convertem-se numa espécie de irmãos da gente, que detestamos ou amamos na medida em que nos frustram ou nos proporcionam o prazer de um espetáculo de 90 minutos, prolongado indefinidamente nas conversas e mesmo na solidão da lembrança.

Mané Garrincha foi um desses ídolos providenciais com que o acaso veio ao encontro das massas populares e até dos figurões responsáveis periódicos pela sorte do Brasil, ofertando-lhes o jogador que contrariava todos os princípios sacramentais do jogo, e que no entanto alcançava os mais deliciosos resultados. Não seria mesmo uma indicação de que o país, despreparado para o destino glorioso que ambicionamos, também conseguiria vencer suas limitações e deficiências e chegar ao ponto de grandeza que nos daria individualmente o maior orgulho, pela extinção de antigos complexos nacionais? Interrogação que certamente não aflorava ao nível da consciência, mas que podia muito bem instalar-se no subterrâneo do espírito de cada patrício inquieto e insatisfeito consigo mesmo, e mais ainda com o geral da vida.

Garrincha, em sua irresponsabilidade amável, poderia, quem sabe?, fornecer-nos a chave de um segredo de que era possuidor e que ele mesmo não decifrava, inocente que era da origem do poder mágico de seus músculos e pés. Divertido, espontâneo, inconseqüente, com uma inocência que não excluía espertezas instintivas de Macunaíma — nenhum modelo seria mais adequado do que esse, para seduzir um povo que, olhando em redor, não encontrava os sérios heróis, os santos miraculosos de que necessita no dia-a-dia. A identificação da sociedade com ele fazia-se naturalmente. Garrincha não pedia nada a seus admiradores; não lhes exigia sacrifícios ou esforços mentais para admirá-lo e segui-lo, pois de resto não queria que ninguém o seguisse. Carregava nas costas um peso alegre, dispensando-nos de fazer o mesmo. Sua ambição ou projeto de vida (se é que, em matéria de Garrincha, se pode falar em projeto) consistia no papo de botequim, nos prazeres da cama, de que resultasse o prazer de novos filhos, no descompromisso, afinal, com os valores burgueses da vida.

Não sou dos que acusam dirigentes do esporte, clubes, autoridades civis e torcedores em geral, de ingratidão para com Garrincha. Na própria essência do futebol profissional se instalam a ingratidão e a injustiça. O jogador só vale enquanto joga, e se jogar o fino. Não lhe perdoam a hora sem inspiração, a traiçoeira indecisão de um segundo, a influência de problemas pessoais sobre o comportamento na partida. É pago para deslumbrar a arquibancada e a cadeira importante, para nos desanuviar a alma, para nos consolar dos nossos malogros, para encobrir as amarguras da Nação. Ele julga que entrou em campo a fim de defender o seu sustento, mas seu negócio principal será defender milhões de angustiados presentes e ausentes contra seus fantasmas particulares ou coletivos. Garrincha foi um entre muitos desses infelizes, dos quais só se salva um ou outro predestinado, de estrela na testa, como Pelé.

A simpatia nacional envolveu Mané em todos os lances de sua vida, por mais desajustada que fosse, e isso já é alguma coisa que nos livra de ter remorso pelo seu final triste. A criança grande que ele não deixou de ser foi vitimada pelo germe de autodestruição que trazia consigo: faltavam-lhe defesas psicológicas que acudissem ao apelo de amigos e fãs. Garrincha, o encantador, era folha ao vento. Resta a maravilhosa lembrança de suas incríveis habilidades, que farão sempre sorrir a quem as recordar. Basta ver um filme dos jogos que ele disputou: sente-se logo como o corpo humano pode ser instrumento das mais graciosas criações no espaço, rápidas como o relâmpago e duradouras na memória. Quem viu Garrincha atuar não pode levar a sério teorias científicas que prevêem a parábola inevitável de uma bola e asseguram a vitória — que não acontece.

Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas como é também um deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.
Carlos Drumond de Andrade

Sunday, January 16, 2011

Amy Winehouse: decadência no auge

Amy Winehouse: decadência no auge

LUÍS ANTÔNIO GIRON
O Summer Soul Festival na Arena Anhembi em São Paulo no sábado, dia 15, foi a prova dos nove para a cantora e compositora inglesa Amy Winehouse. Ela coroou sua turnê pelo Brasil com um espetáculo de péssima qualidade. A excursão pelo Brasil tinha uma grande importância para a artista. Afinal, ela finalmente superaria com um superespectáculo a série de vexames que deu nos últimos tempos, por onde passou. Mas não: Amy impressionou pela insegurança e pela falta de profissionalismo. Minha impressão é de que ela enterrou a carreira de vez – e que esta foi sua primeira e última turnê pelo Brasil. Quem sabe ela possa se recuperar, é a torcida de seus fãs. As razões para a má qualidade de seu desempenho estão em aspectos extramusicais, que se refletem nos musicais. E como ela está num palco e cobrando bem por isso, precisa passar pelo exame da crítica. Que não tem sido nada benevolente com ela.

Amy proporcionou o pior show da noite. Aliás, se há uma figura para simbolizar a série de shows de sábado, ela é a pirâmide invertida. Ou seja, do maior para o menor, do melhor para o pior. A primeira apresentação, com o jovem cantor e compositor de new soul Meyer Howthorne foi a melhor. Acompanhado de uma banda de rthym’n’blues, ele fez um show interessante, apresentando fórmulas sonoras contemporâneas, misturando diversas vertentes, numa espécie de revival dos anos 80 com pitadas de Jamiroquai. Com seu visual descolado (terno branco e óculos de nerd), Meyer disse a que veio.

A cantora Janelle Monae não mostrou a mesma musicalidade. Sim, a moça é animada e sua trupe fez um desfile de fantasias inspiradas no carnaval de New Orleans. Janelle tem ótima voz, mas é um pouco histérica e nervosa. Aposta no exibicionismo e despreza a profundidade. Talvez seja jovem demais para entender isso. Enfim, ela pulou, rebolou se descabelou, e foi acompanhada pela banda, meio baseada no som de New Orleans, meio punk, meio soul.. Como ninguém conhecia as músicas (eu tinha ouvido o CD, melhor que o show, lamentavelmente), o barulho resultou em nada. Shows não se fazem só com cabelos moderninhos e figurinos excêntricos. Janelle pode melhorar, pois tem uma carreira promissora pela frente.

Amy Winehouse, porém, só tem o passado pela frente. Coroou sua turnê pelo Brasil com um espetáculo aquém, muito aquém da fama da cantora. Ela foi superexposta, fez sucesso demais com seu segundo CD, Back to Black, de 2006, e alimentou o jornalismo de fofocas com seu comportamento escandaloso. Amy encanta por ser fora de moda, ela parece ter saltado de 1966 para os dias atuais, sem ter participado da evolução da música. Sua melhor canção, aliás, “Rehab” é totalmente plasmada na marcha harmônica de um sucesso de 1965: “(I can get no) Satisifaction), de Mick Jagger e Keith Richards. Se você cantar “Rehab” junto com a música dos Rolling Stones vai entender o que digo. É como se Amy puxasse aquele blues revolucionário para trás, para o tempo do doo-wop. Para se ter uma ideia do show lamentável que ela deu no Anhembi, o público só se deu conta de que ela cantava “Rehab” uns quatro compassos depois do começo da música. A interpretação era tão desanimada que “Rehab” soou como uma marcha fúnebre.

Trôpega, Amy vagou pelo palco desorientada, como se não soubesse nem onde estava; interrompeu seus números várias vezes para tomar cerveja em uma caneca; passou a mão pelo nariz e pelos braços, como uma junkie; pior de tudo, seu pecado maior foi ter desafinado, ter cantado mal. Em três músicas ela se deu bem, pois ela possui uma voz bonita, expressiva, embora frágil, pequena. Mas já era tarde demais. Logo engatou a protocolar apresentação dos músicos, que durou mais ou menos 10 minutos. Sentou-se no estrado enquanto falava. Como se diz em ópera, Amy teria cantado olhando para o relógio – se pudesse entender o que o relógio informava. Alguns membros d sexteto que acompanhavam a cantora atuavam como paramédicos. Ajudavam a moça a se erguer e a lembrar do set list – ou, como prefiro dizer, do programa do espetáculo. Uma ótima banda, com boa seção de metais e percussão, mas que se perdeu com o destempero da solista.

Alguns fãs aplaudiam e vibravam a cada gole que ela dava na caneca de bebida, assim como na ópera as pessoas aplaudem os agudos. Os fãs deviam aplaudir as boas performances de Amy. Mas não houve nada para aplaudir senão os tragos da mulher desesperada no palco. Algo tão real e tão bruto que talvez mereça aplausos, pois o show business hoje está tão elaborado e megaproduzido, que parece não haver lugar para uma cantora como essa. Em 1966, talvez. Mas naquele tempo as cantoras mais junkies se entregavam à música de forma profunda, emocionante. Basta lembrar de Janis Joplin e Jim Morrison. Vamos lembrar de Billie Holiday, que, mesmo condenada pela heroína, cantava com um sentimento arrebatador. Amy, não. Ela entregou sua voz à dissipação. Sua voz se apagou diante do histrionismo e do desconcerto. Imagino quem pagou R$ 600,00 para, da plateia vip premium, ver uma cantora se desfazer em palco. Alguns fãs ficaram felizes e aliviados, porque esperavam um vexame maior. Não imagino como ele seria.

Wednesday, January 12, 2011

Pendura essa: Visite Botafogo antes que acabe

Pendura essa: Visite Botafogo antes que acabe: "A velha guarda no Vol au Vent, domingo à tarde. Mal tinha baixado o post anterior sobre este enclave de Botafogo, delimitado pelas ruas da..."
A velha guarda no Vol au Vent, domingo à tarde.

Mal tinha baixado o post anterior sobre este enclave de Botafogo, delimitado pelas ruas da Passagem, General Polidoro e Álvaro Ramos (clique aqui) e, ao sair do prédio onde moro, na Passagem, esbarro com jovens tremulando bandeiras coloridas e vendedores distribuindo panfletos do condomínio que será erguido à rua Arnaldo Quintela, onde funcionava o prédio da Oi, quase em frente ao bar Vol au Vent. O marketing do panfleto não deixa dúvida sobre o tipo de sonho imobiliário que o empreendimento, chamado Opera de Milano Residenza, está vendendo: “chegou o 3 e 4 quartos que vai deixar Botafogo muito mais elegante e sofisticado”.

É um projeto da João Fortes Engenharia que está sendo comercializado pela Patrimóvel, com imóveis entre 89m2 e 119m2, cujo valor inicial do metro quadrado é de R$ 7.400, ou seja, estamos falando de mais de R$ 650 mil por um apartamento de três quartos, preço impensável há um ano. Mas, segundo a vendedora com quem falei à porta da obra, trata-se de uma pechincha, pois um empreendimento rival na esquina (Solar alguma coisa) está pedindo mais de R$ 8 mil pelo metro quadrado. Nessa realidade de preço, chego à conclusão que o valor de R$ 1,5 milhão proposto ao dono do Vol au Vent não é nada. Como as novas construções do bairro, o condomínio oferece salão de jogos, churrasqueira com forno de pizza, área de repouso com SPA, sala de brinquedos para crianças, sauna a vapor e uma imensa piscina. Elementos que, segundo a ideologia que movimenta tudo isso, vai melhorar e sofisticar o bairro.

O panfleto do Opera di Milano: exclusividade e sofisticação

O que temos aí, portanto, é o choque de mentalidades diferentes que se digladiam em torno do território, esbarrando-se nas esquinas. E o que tenho visto em Botafogo, simplificando perigosamente o raciocínio, são visões de mundo que valorizam, de um lado, uma idéia de “autenticidade”, presente nos moradores mais antigos, e, de outro, uma noção de “exclusividade” e “sofisticação”, presente no marketing de imobiliárias e construtoras direcionado a um consumidor de renda mais generosa.

Evidentemente, estou simplificando as coisas ao colocá-las nesses pólos. Na verdade, é tudo muito mais complexo, inclusive se formos considerar aspectos de preconceito e discriminação social, políticas de reforma urbana, forças políticas de variadas tendências que disputam o espaço público e os territórios da cidade, o problema das ocupações, favelização, remoções etc e tal. Mas ao conversar com esses moradores, novos e antigos, do bairro, percebe-se o encontro e o desencontro de noções do mundo distintas no que se refere a habitar e a conviver: enquanto uns valorizam uma idéia de “autenticidade”, outros pensam em “exclusividade”.

Sem querer ser exageradamente esquemático e fetichista, vejo que nessas conversas está, de um lado, o habitante que busca conforto, status e segurança num condomínio exclusivo (e, se é exclusivo, é diferente do convencional e, portanto, isolado, distante e distinto); e de outro, o morador antigo, que se vê como representante “legítimo” e “autêntico” dos valores culturais do bairro, que participa de sua vida, instituições, festividades e boemia (e, portanto, se sente integrado).

Pode ser a roda de samba espontânea no Bar da Adelina, puxada por Seu Vavá, ou a procissão de Santa Cecília, padroeira de Botafogo, ou ainda o Bloco do Barbas no carnaval, ou simplesmente o comércio de rua. São valores que o morador mais antigo vê, de modo geral, ameaçados ou pelo menos não compartilhados por esse novo vizinho, mais rico e distante, física e socialmente, dele.

O casario da praça Mauro Duarte, com ruas São Manuel e Fernandes Guimarães: na esquina (com toldo verde) funciona o Sabor da Morena

Alguns conflitos evidenciam esse distanciamento. Um condomínio erguido há dois ou três anos na rua Fernandes Guimarães, por exemplo, trouxe moradores que destoam dos vizinhos das vilas e velhos prédios da rua. O samba que ocorria no bar Sabor da Morena foi um dos pontos iniciais de conflito. Algumas reclamações no disque-ruído e o bar acabou autuado pela prefeitura. Por outro lado, no playground do novo prédio, quase que todos os sábados ocorrem festas de aniversário de crianças, com palhaços e música da Xuxa em alto volume, o que, por sua vez, incomoda os moradores da vila ao lado. A diferença é que estes não usam ou não conhecem o recurso de reclamar com o disque-ruído.

Lembro-me sempre da pesquisa de um amigo antropólogo da UFF sobre o ruído. Ele pesquisou as reclamações do disque-ruído, chegando à conclusão que o problema não era o ruído físico em si, o volume de decibéis propriamente dito, mas sim “quem” produzia o barulho. As reclamações eram todas adjetivadas: “uma macumba infernal”, “um samba de malandros”, “um funk de bandidos”, “um culto pentecostal” e assim por diante. Dependendo de quem fazia o barulho, o delito era mais ou menos tolerável. Talvez, se na Morena, em vez samba, rolasse um jazz...

De qualquer modo, esses conflitos entre vizinhos têm um lado bom Significa que ainda há diversidade no bairro. Isto é, que diferentes tipos de noções de cidadania, de usos dos espaços públicos e de civilidades convivem e às vezes se chocam. A convivência de diferenças é que torna um lugar vivo. Basta ver o exemplo do Greenwich Village, em Nova York, tão bem retratado por Jane Jacobs, no livro Morte e vida de grandes cidades. O Village foi um bairro interessante, dinâmico, abrigando gente rica e operários, músicos, artistas e escritores e comerciantes, negros e latinos, entre outros grupos sociais. Foram os conflitos dessa convivência rica que marcaram a dinâmica do bairro. Com tantas diferenças, o espaço público acabou preservado como o espaço de todos (aqui, se tem, por exemplo, o carro que estaciona ocupando toda a calçada, ou o condomínio que privatiza a rua com cancelas e segurança)

Quando o aburguesamento — ou gentrification, como preferem os britânicos e americanos — tomou conta do Village, os moradores antigos, sem condições de arcar com o novo custo de vida estratosférico, se deslocaram para outras áreas de Nova York, como o Brooklyn, e o Village virou um lugar caro e sem a vida interessante que tinha antes. Mais um arremedo estiloso e marqueteiro do que fora dos anos 20 aos 80. Um pouco como o Leblon dos anos 60-70.
Botafogo tem uma vocação para ser um bairro dinâmico. Cinemas, bares, comércio de rua (e shoppings também) em uma região que faz a ligação entre o Centro e a Zona Sul do Rio. E, ao mesmo tempo, é um bairro de tradição, na boemia, no samba, na vida comunitária (veja a luta dos moradores para criar a Praça Mauro Duarte, que teria virado outro espigão, não fosse a mobilização de vizinhos). Botafogo ainda mantém boa parte do casario antigo, das vilas, dos prédios baixos e uma dinâmica quase interiorana em alguns trechos, como no enclave Passagem-Polidoro-Álvaro Ramos. Mas a velocidade com que novos empreendimentos vêm tomando conta do lugar ameaça esse equilíbrio dinâmico, sustentável e saudável.

Como diz meu amigo Jason Vogel: "Visitem Botafogo antes que acabe.

Thursday, January 06, 2011

Será que o governo é o único grande culpado pelos preços altos de produtos importados?

http://thoughts.lucashungaro.com/post/2597123959/sera-que-o-governo-e-o-unico-grande-culpado-pelos
http://thoughts.lucashungaro.com/post/2597123959/sera-que-o-governo-e-o-unico-grande-culpado-pelos

Será que o governo é o único grande culpado pelos preços altos de produtos importados?

Disclaimer: o bobão aqui publicou o post sem querer, ainda não finalizado. Por isso, quem leu antes do dia 5/Jan vai perceber diferenças no conteúdo ao ler após essa data. A essência e os argumentos são os mesmos.

Ou: Por que eu e você temos tanta culpa quanto?

Uma praga que me irrita, principalmente quando pessoas do meu círculo social caem vítimas, é o que chamo de “pensamento preguiçoso”. As pessoas chegam em respostas fáceis para coisas complexas, onde geralmente o buraco é bem mais embaixo. São induzidas por interesses alheios de fornecer um bode expiatório e emburrecer o senso analítico. Isso acontece em várias áreas e nesse artigo “pincelarei” uma.

Bom, precisamos começar falado sobre duas coisas importantes:

1) Como todo bom povo latino-americano, temos a cultura do governo-pai. Esperamos tudo do governo e, consequentemente, atribuímos ao governo a culpa de toda merda que acontece;

2) Coisas importadas são mais caras em todo lugar, com raras exceções. O problema é que, como país exportador de commodities e importador de tecnologia, damos o azar de ter que importar coisas que já são caras fora daqui, antes das taxas e custos de transporte e intermediários. Por exemplo, se pesquisar pelos preços de comida e bebida brasileira nos EUA, vai ver que são muito mais altos que localmente (mais de 8x em muitos casos). O “problema” é que são coisas baratas, ao contrário de um computador de mil dólares que ao chegar aqui, além dos impostos, ainda ganha mais peso pela conversão cambial.

Esse segundo fator se dá pelo fato de que todo governo tenta proteger sua indústria interna da concorrência externa. É uma forma de nivelar os preços (ou, dependendo do produto e da força da indústria nacional, deixar o preço do importado muito mais alto) para estimular a produção nacional. Muitos argumentam que em casos em que praticamente inexiste uma indústria nacional (video games, por exemplo) isso não deveria ser adotado. Em geral, a justificativa é preservar o “potencial” para essa indústria, mesmo que ela ainda não exista. É algo adotado em praticamente todo lugar do mundo e acho bem difícil que seja modificado. Se é justo ou não, é outra história.

Você pode xingar e resmungar mas, em lugar algum do mundo, produtos de alta qualidade e processos de produção que exigem tecnologia de ponta, quando importados, vão ter preços no nível dos produtos nacionais (salvo em casos extremos de escassez, onde o governo cortará impostos para abastecer o mercado).

Além disso, o governo tem lá sua razão em cobrar alíquotas elevadas de produtos caros: as pessoas com condição financeira vão acabar comprando-os de qualquer modo. Então, por que não ganhar com isso? Não difere nada do funcionamento de uma empresa: não se pode ficar no vermelho por muito tempo. Se você estivesse “do outro lado”, iria achar totalmente normal. Por isso que coisas como alimentos básicos possuem alíquotas bem mais baixas que computadores e video games. É o chamado “Princípio da Seletividade”. É assim que funciona a economia dos países capitalistas. Você deu azar de ser um geek nascido num país subdesenvolvido e importador de tecnologia? Deal with it.

Por aqui é comum que as empresas aproveitem isso e joguem a culpa toda em cima do governo. Porém, há muito mais por trás disso tudo. Entre vários fatores (incluindo, sim, os impostos), o que mais pesa é o status.

Como em todo país com um abismo social gritante, há muita grana concentrada em uma pequena parte da população. Enquanto 60% das pessoas sequer possuem uma residência legalizada (sejam moradores de ruas, de favelas ou outras construções ilegais), uma pequena parte tem acesso a um dos dez maiores mercados de artigos de luxo do planeta. É de se estranhar que roupas Giorgio Armani e canetas de brilhantes da Montblanc vendam mais aqui do que em qualquer outro lugar do mundo, não? Com impostos altos e tudo.

O que acontece é que, para nos diferenciarmos da realidade vivida pela maior parte da população do país, a forma mais eficiente e recompensadora ao ego é consumir. Não digo isso apontando dedos pois eu e todos meus amigos de classe média fazemos isso. Não por maldade e talvez nem pensando sobre o impacto disso, mas por cultura social mesmo.

O interessante é notar que isso não é exclusividade das classes mais altas. Quem aí não conhece casos de gente de classes mais baixas que deixa de fazer coisas importantes pra comprar um carro popular em milhões de prestações?

Aliás, a indústria automotiva aqui é um grande exemplo de compra por status. Carro no Brasil deixou de ser meio de transporte e passou a ser símbolo de emancipação. A indústria, é claro, aproveita. Pra que cobrar 20 mil reais por um carro se posso cobrar 40 mil e vender a mesma quantidade ou mais, já que as pessoas vão se desdobrar em financiamentos pra poder ostentar um?

Adoro quando vejo as montadoras dando desculpa de impostos, quando na verdade elas estão tendo isenções contínuas de IPI e enganando os trouxas que ficam xingando o governo. Faça o seguinte: pegue o preço de um carro nos EUA, que contém 20% de imposto, retire essas taxas, aplique a taxa brasileira de 40% (sem a isenção de IPI) e converta a moeda. Surpresa: o valor não vai chegar nem perto do que se paga aqui. E eu garanto que o salário dos empregados da empresa nos EUA é maior do que os salários daqui (faça isso com modelos que são fabricados aqui e lá, claro, como vários da Toyota e da Ford).

Te enganaram direitinho, não?

Para referência: a média das taxas de importação, em 2000, era de 13,7% (contra mais de 30% em 1990). Claro que há um grande desvio padrão, com taxas indo de 0 a mais de 100%, dependendo do produto, mas é apenas para termos uma ideia. Além disso, dependendo do produto, ainda podem incidir ICMS, IPI e PIS (quanto mais supérfluo o produto, mais se paga, como em bebidas alcoólicas e jogos).

Vejamos mais alguns casos interessantes abaixo.

A loja de roupas Zara (da Espanha) é como uma C&A na Europa. Vende roupas e acessórios “da moda” a preços acessíveis, sem furar os olhos dos clientes. Ao vir para o Brasil (e América Latina em geral), decidiu se posicionar como uma “marca cara”, de elite. Isso foi uma ação deliberada da direção da empresa. No Brasil a Zara é vista como uma marca de roupas de “gente rica”. Ela cobra muito a mais do que seria obrigada pelas taxas, afinal vai vender bastante de qualquer maneira: sua marca simboliza status e porque não capitalizar sobre isso com margens bem maiores?

Calças jeans que aqui custam R$ 700 contra R$ 100 lá fora. Não, amiguinho, elas não pagam 700% de impostos, não seja ingênuo. É que fulanito vai pagar 700 mangos só pra falar que tem uma calça “de marca”, entendeu? E os tênis? Será que eles pagam 900% de impostos? Advinha? Se eu posso vender caro, como empresa que visa lucro, vou maximizar minha margem sem dó nem piedade. Enquanto tiver gente comprando, continuo enfiando a faca.

Não é que em países com boa distribuição de renda as pessoas não comprem por status. Elas compram itens de luxo para ter status. Aqui, além dos itens de luxo, coisas normais como uma calça ou um carro popular também são vistas assim, já que grande parte das pessoas não pode comprá-las pelos preços que são cobrados.

É por esses fatores e por várias outras diferenças econômicas que não faz o menor sentido fazer comparações do tipo “nos EUA você trabalha 5 horas pra comprar um celular e, no Brasil, precisa trabalhar 5 dias para comprar o mesmo”. É óbvio que vai ser muito mais caro aqui: é importado, vem de um país com moeda mais forte e tem alta demanda entre pessoas com boas condições econômicas. Mesmo que os impostos para importados aqui fossem exatamente os mesmos dos EUA, continuaria sendo caro (e você teria que trabalhar 4 dias e meio pra comprar um). É o tipo de comparação que atrai audiência e todo mundo adora retuitar, mas é totalmente vazia de significado.

Quem também leva uma bolada nessa história toda são as redes de lojas. Nesse post do Gizmodo Brasil comentando sobre o preço do MacBook no Brasil ser o mais alto entre os países com venda oficial, o autor acerta na mosca ao falar sobre isso. As margens das redes por aqui (média 25%) são muito maiores do que em países como os EUA (média 6%), onde a concorrência entre lojas como Best Buy, Target e afins deixa as margens mais baixas.

Um problema muito mais grave do que as alíquotas em si, são os impostos em cascata. Esse sim nos quebram as pernas e são praticamente exclusividade brasileira. Combine-os ao fator status e as margens obscenas que os revendedores obtém e, boom, temos os preços altos.

Reclamar de impostos é um hábito do ser humano. Não tem um que não reclame, seja em países pobres ou ricos. É claro que a aplicação dos mesmos faz muita diferença e por aqui temos muito desperdício (ineficiência da máquina pública, corrupção alta etc), mas simplesmente não gostamos de ser obrigados a pagar ao governo uma parte do que ganhamos. Nosso problema (e o problema de quase todos os países no mundo), não são as alíquotas (na média) e sim a má aplicação dos recursos.

Moral da história: somos um povo muito consumista (copiamos a cultura americana sempre, nisso inclusive) e que possui uma cultura de cobrar pouco retorno, seja do governo, seja das empresas. O governo usa mal os impostos e nós deixamos para lá. As lojas e fabricantes cobram altíssimas margens de lucro e também não ligamos muito. Aceitamos para parecermos menos pobres e mais “iguais” aos nossos amigos do hemisfério Norte.

Quer fazer algo sobre isso? Aqui vão algumas sugestões:

- Reveja seus hábitos de consumo;

- Faça parte de iniciativas como o Freecycle;

- Seja ativo na luta contra impostos exagerados e o desperdício dos mesmos. Ficar de mimimi no Twitter não conta; ex: apóie movimentos como o Jogo Justo; sei lá, crie um projeto de lei e colha assinaturas. Ficar choramingando não resolve.

É isso. Da próxima vez que for reclamar sobre como o governo é malvado e as empresas boazinhas não podem te vender produtos baratos, lembre-se de que, como em todo sistema inventado por seres humanos, você pode estar sendo induzido à conclusões fáceis e ilusórias, recheadas de segundas intenções. Nossos queridos políticos tem sim uma parte da culpa, mas tem muita gente tão ou mais culpada querendo tirar o ** da reta.

(Pra quem estiver interessado, na revista Superinteressante de Dezembro, número 285, há uma matéria falando justamente sobre o peso do status nos preços das mercadorias importadas por aqui)

PS: já vi gente achando que tô defendendo o governo, que sou petista, comunista ou sei lá o que. Note que, sim, eu acho as taxas elevadas. Também acho que isso é normal pra muitos produtos (os supérfluos) e temos que saber que não é só aqui que isso acontece (ex: caninha 51 nos EUA custa 23 dólares e aqui, quando muito, custa 5 reais ou 2,9 dólares). A merda maior é que o imposto aqui é muito mal aplicado e isso sim é um grande problema. Mas não é o foco desse artigo.

Update: o Dudu Pontes, da loja virtual greenvana.com, tem vários contrapontos aos meus argumentos aqui. Vale checar nossa conversa via Twitter: http://is.gd/ka7F0

January 04, 2011 16 Comments

Sunday, December 26, 2010

CSA Polui o Ar em Sta Cruz



RIO - A secretária estadual do Ambiente, Marilene Ramos, determinou que técnicos do Instituto estadual de Ambiente (Inea) façam uma fiscalização no bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio. O motivos da fiscalização são as denúncias de moradores da região, que acusam a Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) de ter provocado, mais uma vez, poluição no ar, já que várias casas foram atingidas por fuligem no fim de semana.

Uma das regiões mais atingidas é o local conhecido como Lote 7 e a Avenida João XXIII , próximo da Avenida Brasil, e a Rua Felipe Cardoso. O presidente do Inea, Luiz Firmino Pereira disse que vai mandar checar as estações de qualidade do ar espalhadas pela região. Segundo ele, caso tenha acontecido um problema no ar, as estações vão comprovar.

Nesta semana, a secretária estadual do Ambiente garantiu que os procedimentos adotados pela CSA em Santa Cruz para dar início ao funcionamento do seu alto-forno 2 são adequados e seguros. Segundo a secretária, a autorização para a operação foi baseada em um laudo emitido pela CH2MHILL, auditoria que atestou como seguras as condições de funcionamento dos equipamentos.

- Estou convicta de que os procedimentos adotados pela companhia para ligar o seu alto-forno 2 são totalmente diferentes em relação ao alto-forno 1, que apresentou uma série de problemas - disse Marilene.

Em agosto deste ano, o Inea multou em R$ 1,8 milhão a CSA por poluir o ar com material particulado no entorno da siderúrgica . A punição ocorreu depois de uma vistoria que comprovou que a CSA não comunicou ao Inea problemas com o alto-forno 1, impedindo assim que fossem tomadas providências para minimizar as emissões.

O novo Alemão e a indústria das drogas Wálter Maierovitch 14 de dezembro de 2010 às 10:41h É preciso atacar a economia do tráfico. De outra forma, nã

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Wálter Maierovitch
14 de dezembro de 2010 às 10:41h

É preciso atacar a economia do tráfico. De outra forma, não haverá avanços. Por Wálter Maierovitch. Foto: Thiago Cardoso/AFP

Sozinho e com a elementar cautela de substituir os habituais paletó, gravata e sapatos por camiseta, bermuda e tênis, dei um giro pelo Complexo do Alemão. Só faltou uma volta de teleférico – estava em reforma. Deu para sentir o novo astral e o contentamento da comunidade decorrentes das designações do experiente general Fernando José Lavaquial Sardenberg, infante e paraquedista, para comandar a Força de Paz no Alemão (foi o primeiro em missão no Haiti). E de juízes estaduais para solucionar conflitos e dissensos, quando estes, antes da reconquista pelo Estado, eram resolvidos pelo crime organizado, que aplicava as suas “leis”.

Não se deve esquecer, como já ensinou Piero Calamandrei nas suas Opere Giuridiche, que o Judiciário, ao solucionar conflitos, restabelece a tranquilidade social. Enfim, os moradores do Alemão voltaram a ter cidadania e até uns trocos do “cartão Família Carioca”, um nada original Bolsa Família criado pelo prefeito Eduardo Paes: 440 mil moradores que vivem abaixo da linha da pobreza serão beneficiados – 12% habitam no Alemão.

No Alemão, dentre tantas coisas, interessei-me em saber sobre a casa, com piscina e deck de madeira, de um dos chefes do tráfico. As imagens da casa têm sido repetidas desde a operação policial e os jornais noticiaram como tendo sido uma surpreendente descoberta feita pelas forças de ordem. A tal casa fica no alto e se destaca na paisagem. Poderia ter sido objeto de fotografias aéreas ou de filmagens pelos 007 da inteligência policial. Por evidente, uma “banda pobre” policial mantinha a sua blindagem.

Uma comparação assaltou-me no Alemão. Na região andina, fotografias aéreas e imagens de satélites são registradas com o objetivo de acompanhar as áreas por onde se espalham os arbustos da coca, cuja folha é a matéria-prima na elaboração do cloridrato de cocaína. Desse importante material de imagens decorreu a conclusão de que as áreas de cultivo de coca migram. Mais ainda, nos últimos 20 anos, nunca foram reduzidas.

Ora, não se vence a batalha contra o crime organizado, quer de matriz mafiosa, quer terrorista, sem ataque à economia que movimenta e lhe dá força. Quando a meta é levar as associações delinquenciais à bancarrota, torna-se imprescindível a coleta de dados, como a da casa do chefão do tráfico de drogas ilícitas do Alemão ou os estabilizados 200 mil hectares de arbustos de coca nos países andinos. Sem o desfalque patrimonial, as organizações criminosas continuam a exercitar o poder corruptor, a se infiltrar no poder e influir em época eleitoral.

Depois de preso, Al Capone, que controlava em Chicago a famiglia da Cosa Nostra, resolveu revelar como conseguiu, em 13 anos de Lei Seca (1920-1933), amealhar 60 milhões de dólares: I own the police (algo como a polícia me pertence). E para ter a polícia na mão, Capone precisava de dinheiro. Parênteses: Capone, que era bronco, não lavava dinheiro e foi preso por não pagar tributos. O lavador de dinheiro da Cosa Nostra sículo-norte-americana era Meyer Lansky, dado como gênio das finanças. Lansky nunca foi preso e jamais passou mais de 40 minutos num distrito policial.

Conforme revelado pelo jornal Valor Econômico, a polícia carioca utiliza um potente software. Como o programa carece ser abastecido de dados, algo anda a falhar. Dessa base de dados não contava a casa com piscina e deck no Alemão. Numa visão macro, a criminalidade organizada do Rio e de São Paulo (PCC) ainda não foi atingida para valer no seu “bolso”. As apreensões de imóveis de Polegar e de Thiago Santos Igreja são insignificantes à luz do fenômeno criminal instalado há mais de 30 anos no Rio. Outrossim, impressiona o fato de o jornalismo investigativo, e não as polícias, haver revelado, em O Globo e diante da grande quantidade de drogas encontradas no Complexo do Alemão, que traficantes brasileiros ligados a Beira-Mar têm fazendas em Capitán Bado e Pedro Juan Caballero, e de lá sai parte da maconha ofertada nos mercados do Rio e de São Paulo. Pior: desde 2000, o Instituto Brasileiro Giovanni Falcone denuncia o uso de sementes transgênicas de maconha em Capitán Bado.

Com efeito. O secretário de Segurança do Rio, que conseguiu pela primeira vez na história nacional uma marcante vitória contra o crime organizado na Vila Cruzeiro (Penha) e Complexo do Alemão, sem derramamento de sangue inocente e dentro da legalidade, deveria reforçar as ações de contraste à economia das associações que atuam dentro do Rio e, também, identificar as redes, fora do estado, de fornecimento de drogas e armas às quais o Comando Vermelho, os Amigos dos Amigos e as milícias estão plugados.

Convém não esquecer um sempre atual ensinamento do advogado Edwin Meese, colaborador do FBI nas questões de branqueamento de capitais. Para ele, a “lavagem de dinheiro é como o banco de sangue que dá vida ao crime organizado”. E como pecunia olet (o dinheiro tem cheiro), o capital sujo pode ser perseguido.

Wednesday, December 15, 2010

WikiLeaks mostra telegramas em que José Serra queria entregar Pré-Sal para os americanos

WikiLeaks mostra telegramas em que José Serra queria entregar Pré-Sal para os americanos



- Petroleiras foram contra novas regras para pré-sal


- Segundo telegrama do WikiLeaks, Serra prometeu alterar regras caso vencesse


- Assessor do tucano na campanha confirma que candidato era contrário à mudança do marco regulatório do petróleo

As petroleiras americanas não queriam a mudança no marco de exploração de petróleo no pré-sal que o governo aprovou no Congresso, e uma delas ouviu do então pré-candidato favorito à Presidência, José Serra (PSDB), a promessa de que a regra seria alterada caso ele vencesse.É isso que mostra telegrama diplomático dos EUA, de dezembro de 2009, obtido pelo site WikiLeaks (www.wikileaks.ch). A organização teve acesso a milhares de despachos. A Folha outras seis publicações têm acesso antecipado à divulgação no site do WikiLeaks.

"Deixa esses caras [do PT] fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava... E nós mudaremos de volta", disse Serra a Patricia Pradal, diretora de Desenvolvimento de Negócios e Relações com o Governo da petroleira norte-americana Chevron, segundo relato do telegrama.

Um dos responsáveis pelo programa de governo de Serra, o economista Geraldo Biasoto confirmou que a proposta do PSDB previa a reedição do modelo passado."O modelo atual impõe muita responsabilidade e risco à Petrobras", disse Biasoto, responsável pela área de energia do programa. "Havia muito ceticismo quanto à possibilidade de o pré-sal ter exploração razoável com a mudança de marcos regulatórios que foi realizada."

Segundo Biasoto, essa era a opinião de Serra e foi exposta a empresas do setor em diferentes reuniões, sendo uma delas apenas com representantes de petroleiras estrangeiras. Ele diz que Serra não participou dessa reunião, ocorrida em julho deste ano. "Mas é possível que ele tenha participado de outras reuniões com o setor", disse.


O despacho relata a frustração das petrolíferas com a falta de empenho da oposição em tentar derrubar a proposta do governo brasileiro.O texto diz que Serra se opõe ao projeto, mas não tem "senso de urgência". Questionado sobre o que as petroleiras fariam nesse meio tempo, Serra respondeu, sempre segundo o relato: "Vocês vão e voltam".

A executiva da Chevron relatou a conversa ao representante de economia do consulado dos EUA no Rio.
A mudança que desagradou às petroleiras foi aprovada pelo governo na Câmara no começo deste mês.

Desde 1997, quando acabou o monopólio da Petrobras, a exploração de campos petrolíferos obedeceu a um modelo de concessão.Nesse caso, a empresa vencedora da licitação ficava dona do petróleo a ser explorado -pagando royalties ao governo por isso.Com a descoberta dos campos gigantes na camada do pré-sal, o governo mudou a proposta. Eles serão licitados por meio de partilha.

Assim, o vencedor terá de obrigatoriamente partilhar o petróleo encontrado com a União, e a Petrobras ganhou duas vantagens: será a operadora exclusiva dos campos e terá, no mínimo, 30% de participação nos consórcios com as outras empresas.

Datados entre janeiro de 2008 e dezembro de 2009, mostram a preocupação da diplomacia dos EUA com as novas regras. O crescente papel da Petrobras como "operadora-chefe" também é relatado com preocupação.

O consulado também avaliava, em 15 de abril de 2008, que as descobertas de petróleo e o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) poderiam "turbinar" a candidatura de Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil.O consulado cita que o Brasil se tornará um "player" importante no mercado de energia internacional.

Em outro telegrama, de 27 de agosto de 2009, a executiva da Chevron comenta que uma nova estatal deve ser criada para gerir a nova reserva porque "o PMDB precisa de uma companhia".

Texto de 30 de junho de 2008 diz que a reativação da Quarta Frota da Marinha dos EUA causou reação nacionalista. A frota é destinada a agir no Atlântico Sul, área de influência brasileira.Na Folha tucana

Serra queria vender o Brasil

O então candidato da oposição, José Serra, não tenha expressado "um senso de urgência para a questão". O cônsul confirma a percepção da executiva ao escrever que fontes do Congresso disseram que Serra recomendara ao PSDB e outros partidos da oposição que fizessem emendas aos projetos, mas não se opusessem a eles.

Diante desse cenário, a estratégia das petrolíferas para barrar a aprovação do novo marco do pré-sal seria fazer lobby no Senado por meio do IBP e de outras entidades como Organização Nacional da Indústria do Petróleo (Onip) e Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Embora, na sua avaliação, Hearn tenha escrito que a mudança na Lei do Petróleo pode afetar o interesse das companhias americanas, em diversos outros telegramas as empresas reafirmam sua intenção de permanecer no Brasil, mesmo com a alteração nas regras.

Nos telegramas, é claro o entusiasmo dos americanos com José Serra e com o pré-sal, chamado pela ex-cônsul Elizabeth Lee Martinez de "nova excitante descoberta" e "oportunidade de ouro" para as empresas americanas oferecerem tecnologia para a exploração.

Tuesday, November 23, 2010

Jornalista da RBS: “Hoje qualquer miserável pode ter um carro” | Viomundo - O que você não vê na mídia

Jornalista da RBS: “Hoje qualquer miserável pode ter um carro” | Viomundo - O que você não vê na mídia

Jornalista da RBS: “Hoje qualquer miserável pode ter um carro”
por Conceição Lemes

Em São Paulo, há muitos anos existe o rodízio de circulação de carros, baseado no final das placas. Para driblá-lo, as famílias mais abastadas logo deram um jeito. Passaram a ter dois, três, quatro carros na garagem, o que contribuiu, sem dúvida, para o aumento da frota nas ruas. Engraçado. Ninguém reclamou.

Porém, bastou o sonho do veículo próprio (automóvel ou moto) se tornar realidade para muita gente das camadas populares, para a chiadeira começar. A culpa? Ora, para a elite inconformada com o ascensão social dos pobres, é do presidente Lula, graças às facilidades de crédito.

O comentário do jornalista Luis Carlos Prates (veja o vídeo abaixo) num dos telejornais da RBS, afiliada de TV Globo em Santa Catarina, é exemplo da intolerância e do preconceito. O que será que ele disse quando um “mauricinho”, filho de um dos diretores da emissora em que trabalha, estuprou uma colega adolescente de Florianópolis? Será que o abafamento do caso pela polícia e mídia locais também é culpa do Lula?